Dias de puro deleite e muita caipirinha

Tentei encontrá-lo para uma entrevista em 1974, na Itália, onde então morava, em Roma (via della Torre Argentina) e Ravello, costa amalfitana. Mas ele e seu companheiro Howard Austen estavam de férias na Califórnia. Teria de esperar mais 13 anos para enfim conversar com uma de minhas maiores admirações intelectuais (mais) e literárias (menos). Assim mesmo por telefone. Uma hora de papo: Gore Vidal de sua cobertura romana, eu de um prosaico terceiro andar no Rio. Dali a uma semana ele chegaria ao Brasil, a convite da Folha de S. Paulo, da Companhia das Letras e da Unicamp, para lançar sua coletânea de ensaios De Fato e de Ficção.

SERGIO AUGUSTO, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2012 | 03h10

Banquei-lhe o cicerone no Rio, na última semana de março de 1987. Quatro dias e quatro noites de puro deleite intelectual, mundano, turístico e gastronômico. Realizou um sonho de infância: hospedar-se no Copacabana Palace, que em sua avó e sua mãe deixara ótimas lembranças. "Do jeito que eu gosto: confortável, espaçoso e decadente", comentou ao percorrer com os olhos a suíte (217) que lhe fora reservada.

Bom de garfo e copo, chegara havia pouco de um tour gastronômico na Tailândia, onde, todos os anos, passava um mês, com o companheiro, no Mandarin Oriental, em Bangcoc. Até uma feijoada à noite, promovida por um grupo de admiradores cariocas, ele enfrentou galhardamente. Adorava feijão, paixão cultivada desde o final dos anos 40, quando morou com Anaïs Nin, ao lado de um mosteiro em ruínas em Antigua, antiga capital da Guatemala.

À feijoada seguiu-se um programa inusitado: a festa de entrega dos Oscars. Ligado afetiva e profissionalmente ao cinema, seus olhos se iluminaram quando lhe disse que um amigo (o crítico de cinema Nelson Hoineff) nos convidara para curtir a transmissão do Oscar pela TV. O anfitrião foi avisado da ilustre visita com a devida presteza, mas seus numerosos convivas, não. O espanto foi geral.

Com caipirinha e uísque até os tampos, Gore (desculpe a intimidade) deu um show infinitamente mais inspirado que o do mestre de cerimônias da festa em Los Angeles. Pichou vários dos premiados, exaltou alguns injustiçados e abriu seu precioso baú de fofocas sobre a fauna hollywoodiana. Noitada inesquecível, que culminou com uma exibição en privé dos dotes musicais de Howard, excelente intérprete do que de melhor nos legou o cancioneiro popular americano.

Incansável, Gore vangloriava-se, com bons motivos, de seu élan vital, que me permiti apelidar de "élan vidal", prontamente aprovado e adotado. Falamos muito sobre palavras, cinema, sua fraternal amizade com Tennessee Williams, o casal Paul Newman-Joanne Woodward (seus afilhados de casamento) e o escritor italiano Italo Calvino, suas brigas legendárias (com Norman Mailer já fizera as pazes, com Truman Capote não), sua admiração pelos críticos literários Edmund Wilson e V.S. Pritchett, seu apreço por William Golding -e por aí fomos.

Por algum tempo nos correspondemos. No verso do envelope, meu apartamento era sempre transformado em "hacienda", piada privada com o filme Meu Amor Brasileiro que um dia tornarei pública.

Adorou a cidade, que lhe lembrou Hong Kong, Sydney e São Francisco. Gostou mais do Pão de Açúcar que do Cristo Redentor, que achou "kitsch"ao extremo e sugeriu que o trocássemos por uma estátua de Buda. "Traz mais sorte", explicou-se, dando como exemplo a diferença entre as economias do Japão e as dos países onde o cristianismo triunfou.

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