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Dias D

Cheguei a imaginar que Trump sairia arrastado da Casa Branca pelos braços ou pelas pernas

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2021 | 03h00

Já apelidaram o ministro da Saúde de “Pazuzu”. Isso é melhor do que “Pazzo” que, em italiano, quer dizer maluco. “Pazuzu” não quer dizer nada além de ministro da Saúde do Bolsonaro. Já o chamavam assim antes de ele anunciar o início da vacinação contra a covid-19 para o Dia D e para a Hora H. 

Quer dizer então que a vacinação só terá início às seis horas da manhã de 6 de junho?, perguntaram-se, perplexos, aqueles que conhecem um pouco de história contemporânea. Cinco meses de espera?! Morreremos todos antes disso.

E ainda nem sabíamos que, além das vacinas, nos faltavam agulhas, seringas e oxigênio na quantidade necessária.

O Dia D que celebrizou a expressão, tão ao gosto do jargão militar, se refere à data (6 de junho de 1944) em que as forças aliadas invadiram a Normandia, virando a guerra contra o exército nazista, e não ao vindouro 25 de janeiro de 2021, que não sei se ainda é o Dia D paulista – D de Doria. 

Durante a invasão da Normandia, morreram 96.592 pessoas, entre soldados aliados, alemães e civis franceses. O que ainda é menos da metade dos que já perderam a vida para o coronavírus, no Brasil. 

O Dia D é D, e não A, B ou C, por designar Decisão, Desembarque, entre outras coisas iniciadas com a quarta letra do alfabeto, inclusive Doomsday (apocalipse) e Death (morte em inglês), e, se juntarmos dia, mês e hora, teremos o número do anticristo (666), o que talvez contribua para aumentar o tráfego de teorias conspiratórias antivacinas no WhatsApp de crentes, descrentes e indigentes mentais.

O 6 de junho de 1944 firmou-se, com méritos de sobra, como o Dia D mais famoso e determinante de todos os tempos. Outros aconteceram na Guerra do Pacífico, mas sem a mesma repercussão. Aprendi esta semana que, no rol das grandes operações bélicas da história, o primeiro Dia D ocorreu durante a outra Guerra Mundial, com o confronto de tropas americanas e aliadas contra as forças do Kaiser, na batalha de Saint-Mihiel, também em território francês, em setembro de 1918. 

Lucraremos, pois, três meses se o Dia D anunciado pelo ministro da Saúde for, mesmo, o da Segunda Guerra. E muito, muito mais, se a vacinação começar, a se acreditar em sua mais recente promessa, na próxima semana. Eu não acredito – e os indianos menos ainda. 

Num cartum da revista The New Yorker desta semana, três pessoas conversam ao redor de uma fogueira, e uma delas anuncia: “As vacinas estão a caminho. Eu não disse a vocês que 2045 seria o nosso ano de sorte?”. 

Que Pazuzu nada entende de medicina e saúde há muito já sabíamos e há dias confirmamos ao vê-lo insistir na cloroquina em pleno inferno viral de Manaus. Já desconfiávamos que ele não era bom sequer do que, oficialmente, mais entende – logística –, mas só teremos a prova dos nove nos próximos dias ou nas próximas semanas ou nos próximos meses, a depender da celeridade do D de Doria. 

Que o nosso ano de sorte seja mesmo 2021, não 2045.

Enquanto rolava a sórdida gincana da vacina e o ministro prometia uma coisa à população (“temos seringas e agulhas para vacinar a população inteira”) e admitia outra ao STF (“não temos insumos para todos os brasileiros”), Israel vacinou 70% de seus idosos, e a pobre e rural Guiné, com uma população equivalente à de São Paulo e tomando a vacina russa havia duas semanas, contabilizou apenas 80 mortes, quase 200 vezes menos óbitos que os registrados em São Paulo. 

Vai daí que o único Dia D certo no horizonte do comprovável ficou sendo o da posse de Joe Biden, quarta-feira próxima. Seu insumo básico é a Guarda Nacional, espalhada por Washington com uma semana de atraso e, paradoxalmente, com uma semana de antecedência. 

Que desfecho, hein? Cheguei a imaginar que Trump sairia arrastado da Casa Branca pelos braços e pelas pernas, ou pelos fundilhos, por agentes do FBI, mas nunca estimei possível o charivari fascistoide de quarta-feira retrasada. Do lado de fora do Capitólio, sim. Dentro, e ao vivo pela TV, como um macabro baile à fantasia, jamais. 

Meu velho amigo Claudio Bojunga, jornalista e acurado observador da cena política, considerou a insurreição “um mix de Reichstag com Tonelero”. Ou seja, uma mistura do incêndio do Reichstag (executado em 1933 e atribuído aos comunistas, uma espécie de Dia D do golpismo nazista) com o atentado da Rua Tonelero contra Carlos Lacerda, em 1954, em que morreu, por engano, o major Rubem Vaz, estopim de uma crise que culminaria com o suicídio do presidente Vargas, 19 dias depois.

Discordo da comparação com o incêndio do Reichstag. O furdunço no Capitólio me lembrou mais o malogrado putsch de Hitler na cervejaria de Munique, em 1923. 

Isso, sobretudo agora, é irrelevante. Temos de olhar para a frente e, pela frente, temos o Dia D da posse, com promessa de arruaças e protestos de trumpistas em várias capitais americanas, mas nada que ameace a República nem supere a espetaculosidade da invasão do Congresso no dia 6, já que seus vândalos mais bizarros foram tirados de cena pela polícia. 

Não veremos mais, por exemplo, QAnon Shaman, nascido Jacob Chansley, aquele pajé pele-vermelha com um escalpo de bisão na cabeça, que eu tomei, equivocadamente, por um representante viquingue do movimento conspiratório de ultradireita QAnon. Investigado pelo FBI, o xamã revelou-se, acima de tudo, um trivial filhinho de mamãe, um mimado incel de mafuá, que exige comer alimentos orgânicos mesmo atrás das grades. Pensei que “trumpista orgânico” fosse outra coisa. 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’

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