Diário inédito traz charme de Che Guevara

Antes de juntar-se a Fidel Castro, para realizar a revolução cubana, Ernesto Che Guevara percorreu a América Latina duas vezes. Os relatos da primeira viagem, em 1952, foram publicados no Brasil em 2001, com o título De Moto pela América do Sul ? Diário de Viagem, e filmados, no ano passado, por Walter Salles, com o galã mexicano Gael Garcia, no papel do líder revolucionário, e Rodrigo de la Serna (argentino como Che e seu parente), como seu companheiro de rota Alberto Granado. Os registros da segunda viagem chegam agora às livrarias brasileiras com o título de Outra Vez ? Diário Inédito da Segunda Viagem pela América Latina/1953-1956 (Ediouro, R$ 29). Os dois relatos guardam profundas diferenças na forma e no conteúdo. O primeiro revela um jovem estudante de medicina conhecendo seu continente e foi totalmente reescrito pelo próprio Che Guevara antes de sua publicação. É a memória retrabalhada de um período de descobertas. O segundo mostra o médico prestes a se tornar revolucionário, o que aconteceria no fim do percurso, quando ele saiu do México para juntar-se aos revolucionários cubanos. O texto é mais solto e, por isso mesmo, traz as dúvidas e anseios de Che Guevara, além de suas opiniões, sem qualquer censura, sobre a paisagem, humana e física, que ele encontra nos grotões latino-americanos. O diário é curto (vai até a página 108), às vezes repetitivo, pois certamente ele pretendia reprocessar as anotações para publicação posterior, mas o texto é cativante. Escrevendo para si mesmo, Guevara tem um estilo leve, irônico e detalhista. Suas observações evidenciam uma humanidade que acrescenta charme ao mito criado com sua sua participação na revolução cubana e eternizado com sua morte na Bolívia, em 1967. Ele critica as desigualdades e desmandos a que assiste por todo o trajeto, mas nunca é amargo ou perde as esperanças, mesmo quando tudo dá errado. Médico recém-formado, já trocara uma carreira brilhante de alergista e pesquisador em Buenos Aires, sem ter encontrado caminho como revolucionário. Guevara tentava, sem sucesso, trabalhar nos países por onde passou (Bolívia, Peru, Equador, Panamá, Costa Rica, Guatemala e México, onde foi preso) e sofria com uma falta de dinheiro que chegava à penúria e com a asma, que o deixava de cama boa parte do tempo. Aprendemos que Che e seus amigos se privavam de comida, um teto sobre a cabeça ou transporte para longas viagens, mas não de companhia feminina, como na sua última noite em La Paz, capital da Bolívia. ?Finalmente estava tudo pronto para a partida. Cada um de nós tinha sua referência amorosa para deixar para trás. Minha despedida foi mais no plano intelectual, sem doçura, mas creio que existe alguma coisa entre nós, ela e eu.? Ele fala, com mais amizade que paixão, de Hilda Gadea, que conheceu no México em 1954 e foi sua primeira mulher, mãe de sua filha, Hilda Beatriz. E faz só uma referência a Fidel Castro, que conheceu em 1955. Mas sua aventura estava só começando e, no último parágrafo, ele promete continuar contando-as. Fala da filha recém-nascida, Hilda Beatriz, como um fato importante ocorrido em 1956 e revela ter muitas expectativas para 1957. ?Este ano pode ser muito importante para o meu futuro.? Foi mesmo, pois em novembro ele rumou para Cuba e fez história, sem tempo de rever essas notas agora publicadas.

Agencia Estado,

02 de abril de 2003 | 15h28

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