Diário de um louco

Obra-prima do ficcionista suíço Robert Walser, o romance Jakob von Gunten chega às livrarias dia 4, resumindo sua temática - a do homem nascido para servir -, presente em Os Irmãos Tanner e O Ajudante

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

Nenhum escritor pretendeu ser tão pouco como o suíço Robert Walser (1878-1956). No entanto, sua influência foi enorme sobre gigantes literários do século 20, entre eles o escritor checo Franz Kafka (1883-1924). Quem leu O Castelo (1922) não deixou de notar, a exemplo do Nobel sul-africano J.M. Coetzee (no recém-lançado Mecanismos Internos), que Barnabás e Jeremias - respectivamente, o imaturo mensageiro do castelo e o assistente do agrimensor K. - são derivações de Jakob, o protagonista de Jakob von Gunten, que chega às livrarias no dia 4. É o melhor livro entre os que Walser legou ao mundo, antes de ser internado num asilo para doentes mentais de Herisau, Suíça, em 1933. Se Jakob serviu de protótipo para Kafka, é certo dizer que Walser foi o modelo dos próprios personagens, inclusive do notável Jakob, jovem que se submete voluntariamente às regras inflexíveis de um instituto educacional, o Benjamenta, privando-se de sua liberdade, usando um uniforme e obedecendo cegamente ao velho diretor e sua irmã, sempre com uma intimidadora varinha branca na mão.

Walser, que começou a ser mencionado além da fronteira de língua alemã apenas em 1934, um ano depois de sua chegada a Herisau, já era assunto do ensaísta e pensador alemão Walter Benjamin (1892-1940) em 1929. Leitor de primeira hora, Benjamin abriu as portas para que outros grandes nomes da literatura - Thomas Mann, Elias Canetti, Herman Hesse, e, posteriormente, W. G. Sebald e Peter Handke - lessem com cuidado os três romances que sobreviveram entre os quatro escritos por Walser: Os Irmãos Tanner (Geschwister Tanner, 1906), O Ajudante (Der Gehülfe, 1908) e Jakob von Gunten (1909). Do quarto, O Ladrão (Der Räuber), escrito entre 1925 e 1926, só restaram 24 folhas de microescrita (mais ou menos 150 páginas) publicadas apenas em 1972.

A microescrita de Walser - sinais caligráficos diminutos desenhados a lápis e usados no romance O Ladrão e na peça Felix - pode ter sido criada em função das alucinações do escritor, que ouvia vozes e foi diagnosticado como esquizofrênico, embora Enrique Vila-Matas tenha uma outra teoria sobre ela - em Doutor Pasavento, o autor catalão diz que foi seu desejo de desaparecer do mundo que fez de Walser um escritor de microgramas liliputianas. Decifrada com a ajuda de um aparelho usado na indústria têxtil para contar fios, essa escrita foi abrigada em seis volumes, publicados na Alemanha entre 1985 e 2000.

Todos esses textos foram produzidos até 1932. Walser passou os 23 anos restantes em sanatórios. Sua entrada no asilo de Herisau, um ano depois, marcou o fim de sua produção literária. Na tentativa de fazer com que voltasse a escrever, pelo menos como medida terapêutica, o editor e filantropo Carl Seeling, tutor e guardião legal de sua obra, incentivou-o como pôde, mas não convenceu Walser, que respondeu: "Não estou aqui para escrever, mas para enlouquecer". Essa lógica paradoxal predomina em seus romances, inclusive no diário mantido por Jakob no Instituto Benjamenta, repleto de reflexões que num primeiro momento parecem um tanto ilógicas sobre o tipo de formação lá recebida. Também escapa à esfera racional a descrição em detalhes de seu trágico fim no mais autobiográfico de seus livros, Os Irmãos Tanner.

Louco, profeta ou iluminado, o fato é que Walser anteviu sua morte como viria a ocorrer no dia de Natal de 1956, quando a polícia de Herisau recebeu um telefonema sobre um morto caído na neve, logo identificado como Walser. Aos 78 anos, ele saiu para passear, como de costume, e foi encontrado horas depois por um grupo de meninos, que tropeçou no cadáver. Morreu de um ataque cardíaco. Com ligeiras variações, é a mesma história que Walser conta numa passagem de Os Irmãos Tanner. Nela, o poeta Sebastian é também encontrado morto na neve. O personagem Skimon Tanner faz o elogio do defunto, destacando sua nobreza ao buscar na natureza uma "tumba nobre", construída por abetos verdes cobertos de neve.

Sonhar em silêncio nos longos passeios sobre o chão coberto de musgo, sentir o perfume dos abetos, contemplar as montanhas e o céu era tudo o que Walser queria, transferindo esse hábito para seu personagem Jakob von Gunten, que, apesar disso, parece preferir o burburinho da metrópole. Ele elege como distração favorita andar de elevador na cidade quando consegue escapar do modorrento instituto onde estuda. Lá, diz ele, "se aprende muito pouco". Nele, só um livro é usado e uma única matéria é lecionada - a maneira de um rapaz se comportar e servir à sociedade. Na velhice, resmunga Jakob, terá de servir a jovens grosseirões, arrogantes e mal-educados. Portanto, precisa aprender a obedecer - "do contrário, vou precisar mendigar para não perecer". Isso se aplica aos protagonistas dos outros livros de Walser, inclusive o jovem Joseph Marti de O Ajudante, que, empregado no escritório do engenheiro Tobler, leva um antigo funcionário da casa para pernoitar no quartinho que ocupa, após uma noite de bebedeira, sendo sumariamente despedido.

Joseph, como Jakob, pertencem à categoria dos jovens que chegam para desestabilizar instituições públicas ou familiares com a desfaçatez de quem despreza os valores burgueses. Em Jakob von Gunten, o garoto endiabrado, inicialmente intimidado pelo diretor e sua irmã Lisa, inverte o jogo e seduz a ambos para ignorar depois a afeição que a ele devotam. Lisa, rejeitada, cede à depressão. Já o diretor convence-o a abandonar tudo e acompanhá-lo em sua louca aventura pelo mundo. Walter Benjamin dizia que os personagens de Walser são como figuras de um conto de fadas que chegou ao fim, compulsoriamente jogadas num mundo real e "marcadas por uma superficialidade sistematicamente dilacerante e desumana". Ao leitor, desconcertado, só lhe resta acompanhar a lógica de chapeleiro maluco que marca personagens cínicos como Jakob. "Num tempo de confusão social mais intensa", observa Coetzee, ele seria uma presa fácil dos camisas pardas de Hitler.

Coetzee defende que Walser, pouco chegado à política, mantinha um envolvimento emocional com sua classe de origem, a dos pequenos comerciantes e funcionários - talvez pela falta crônica do dinheiro em sua vida, ele que lutou em vão para se integrar à Berlim cosmopolita. Seu irmão Karl, cenógrafo do diretor austríaco Max Reinhardt, ajudou como pôde, apresentando-o ao editor Bruno Cassirer (1872-1941), que publicaria Os Irmãos Tanner, Jakob von Gunten e O Ajudante, além de Gedichte, livro de poemas ilustrado por Karl Walser. Com o casamento do irmão, Walser volta à Suíça em 1913 - e ao provincianismo, segundo Coetzee.

O escritor viveu os sete anos seguintes de modo precário, ocupando um pequeno quarto num hotel de Biel e vendendo textos curtos para suplementos literários. Em busca de melhores oportunidades, mudou-se para Berna, conseguindo um emprego no Arquivo Nacional. Não durou muito. Foi demitido por insubordinação - e também por beber um pouco além da conta, à maneira do Joseph Marti no epílogo de O Ajudante. Como se vê, Walser parecia empenhado em antecipar sua vida real na literatura, talvez por não acreditar no futuro, preferindo viver o tempo presente como quem está "de passagem" - compreendendo, enfim que a vida é um "ir deixando para trás", como observou o autor suíço Peter Bichsel, cético como Walser e ainda vivo (Die Jahreszeiten/As Estações, de 1967, sobre as frustrações de um escritor, é sua obra mais conhecida). Walser, garante Bichsel, nunca revisou seus textos. Ele diz que seus romances não são feitos de páginas, mas de frases que colam à pele. Todas citáveis, como a que encerra Jakob von Gunten: "Deus acompanha os que não pensam".

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