Diário de Galeazzo Ciano, o 'vice-ditador' da Itália fascista, recebe tratamento de thriller

MARCOS GUTERMAN

O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2012 | 03h09

O jornalista americano Ray Moseley transformou os diários de Galeazzo Ciano, o segundo homem mais poderoso da Itália fascista, num thriller de suspense e intrigas no coração da aliança entre Hitler e Mussolini na Segunda Guerra. O resultado está no livro O Conde Ciano - Sombra de Mussolini, que a editora Globo publica no Brasil.

A importância documental dos diários já era conhecida entre os historiadores, porque Ciano foi um personagem privilegiado dessa trama. Ele ocupou o Ministério das Relações Exteriores da Itália, posição que lhe permitiu influenciar o jogo de poder tanto dentro do governo italiano quanto na conturbada relação com Hitler; era considerado (e considerava-se) o sucessor de Mussolini; e foi genro do Duce, status que lhe franqueou total acesso à intimidade do ditador italiano. Por meio dessa documentação, uma das mais valiosas produzidas na época, é possível observar como o processo de tomada de decisões no Eixo Berlim-Roma estava sujeito a disputas mesquinhas, que selavam o destino de milhares de pessoas. O que Moseley faz é explorar essa narrativa de modo a ressaltar-lhe a dramaticidade de um momento crucial da história - e Ciano sai dela mais humano do que entrou.

O autor não se propõe a produzir história, porque ele não questiona os diários, aceitando o documento quase sempre como se fosse a expressão da realidade. Seu livro beira um romance, no qual se ressaltam a infinita ambição de Ciano, a personalidade tumultuada de sua mulher, Edda, filha do Duce, os delírios grandiloquentes de Mussolini e o desdém de Hitler por seu principal aliado.

Edda aparece na obra como uma mulher impetuosa e independente, que colecionava namorados que "tendiam para o 'latin lover' tipo gigolô", o que enfurecia o pai. Os relatos menos ofensivos diziam que ela era "ninfomaníaca" e "bêbada". Ainda assim, ao final da guerra, ela é retratada por Moseley como uma mulher genuinamente empenhada em salvar o marido e os filhos.

Mussolini, por sua vez, surge, a partir da descrição de Ciano, como uma vaga de insensatez. Seus erros de avaliação sobre os alemães beiram o absurdo. Antes que a Alemanha invadisse a Checoslováquia, em março de 1939, Mussolini brincou com Ciano sobre a disposição alemã para a guerra, àquela altura suficientemente clara para todo mundo: "Os alemães são um povo militarizado, mas não guerreiro. Dê-se-lhes um bocado de manteiga, salsicha, cerveja, um carro barato, e nunca vão querer arriscar a pele". Além disso, quando decidiu jogar a Itália no conflito, o Duce ignorou todos os sinais de que seu país não tinha a menor condição de combate. Isso já havia ficado claro na aventura da ocupação da Albânia, como resposta à invasão alemã da Checoslováquia. O chefe de gabinete do governo italiano, Filippo Anfuso, escreveu: "Se os albaneses dispusessem de um corpo de bombeiros bem treinado, teriam nos jogado no Adriático".

Já Ciano, o personagem central de Moseley, aparece em todo o esplendor daquele que era chamado de "vice-ditador" da Itália, o homem mais odiado do país. Crítico mordaz de Hitler ("é simplesmente impossível entender como tal homem conseguiu arrastar todo o povo alemão atrás de si", escreveu ele), Ciano conduziu os italianos à desastrosa guerra contra a Grécia, entre 1940 e 1941, quando Roma teve de implorar a ajuda dos nazistas ante a perspectiva de um vexame. Ele achava que seria um mero "desfile militar", mas, a partir de um certo momento, os famintos soldados italianos tiveram de comer a forragem destinada às mulas. "É um fanfarrão", disse o ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, sobre Ciano.

Ao final da guerra, porém, já sem apoio de Mussolini e condenado à morte pelos fascistas por ter traído o Duce, Ciano revelou-se um homem que amava verdadeiramente sua mulher e seus filhos. "Ele não é melhor ou pior do que os outros (italianos)", disse Mussolini. O personagem que alcançara o poder com apenas 33 anos, e que chegou a submeter a Itália a seus caprichos, terminou seus tormentosos dias diante de um pelotão de fuzilamento - mas ali então ele já não era nada além de um simples homem de família.

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