Diário de Canudos Parte Final - Bendegó

"Vim homenagear esse homem e cair de joelhos frente à grandeza humana que virou livro", diz o ator

Pascoal da Conceição,

03 de dezembro de 2007 | 21h42

Estamos batendo em retirada. Amanhã já estarei em São Paulo, o celular vai funcionar, Canudos vai ser coisa do passado. Quando será que eu vou voltar? Alguém sugeriu fazer daqui um pólo de teatro no Nordeste. Público e interesse tem, ontem a praça de alimentação parecia a Praça Roosevelt quando tem Satyrianas, a festa da primavera teatral de São Paulo organizada pelo Grupo Satyros: uma multidão comendo, bebendo, falando de teatro, de conselheiro, de guerra, vendendo artesanato, camisetas de Canudos, programa da peça. Foi intenso, foi grande, 26 horas de espetáculo. Ontem então, foi uma choradeira só, dos que ficam e dos que vão.  Faltou ingresso, teve gente voltando para casa. A fila para entrar começou às 6 da manhã! Tudo isso excitava ainda mais todo mundo que queria ver o "último dia".  Notícias da guerra. Perguntei pro Zé como foi pra trazer pra cá esse Bendegó, a pedra do tamanho de uma vaca que há milhares de anos veio do fundo do cosmos para cair nestas terras. Ele olhou pra mim, respirou fundo e disse: "Ai!"  Ontem, antes de começar o segundo ato, Zé Celso lembrou da data que marca os 105 anos da primeira publicação do livro, que ele ganhou do seu pai e ficou na estante muitos anos. Um dia leu e, depois, uma obstinação de artista criador foi pondo fogo em todos os que fizeram esta construção. A platéia era colorida, os tons de vermelho, amarelo e laranja predominavam. Zé parecia o Conselheiro fazendo sua prédica no sertão: "Vocês têm que pegar o livro com coragem, e ler. Está tudo pronto para Canudos ser o embrião da Universidade de Canudos, tendo como base o livro Os Sertões. As crianças do projeto Bixigão, que iniciaram os ensaios, estreando A Terra em 2 de dezembro de 2002, há exatamente seis anos atrás, se alfabetizaram lendo o livro. Leiam em voz alta, em grupos, tendo do lado um computador ligado na internet, clicando para pesquisar cada coisa desconhecida. O Oficina contagiou a cidade com a peste do teatro, agora tudo mundo é cabra da peste!" O final do espetáculo parecia a "cerimônia do beija’, uma cena de beijação de santo que tem na peça, que acontece quando os seguidores do conselheiro se reuniam para beijar os santos das imagens. Começam beijando imagens, depois se beijam entre si e terminam beijando todo o público e o público se beijando também. Ontem, a peça foi terminando e todo mundo foi pra pista palco, música, luz piscando colorido, câmeras, flashes, fotos de fotógrafos, amadores e profissionais, todo mundo se beijando e chorando. Beijos demorados, namorados, descarados, selinhos, pela cara toda, abraços, lágrimas, apertos, agradecimentos, endereços, telefones, saudades, olhos molhados de milagre.  Vez em quando, antes, eu leio em voz alta aqui na sala o artigo que mandarei para o jornal. A casa está lotada, aproveito para ver e sentir a platéia e também confirmar e conferir impressões. Hoje está vazio. Muitos já foram embora ontem mesmo, alguns estão dormindo depois do forró que encerrou de manhã a noite da última apresentação. Ainda tem, pra hoje, às quatro da tarde uma romaria com os atores e as crianças do P.E.T.I., que vão passar recolhendo lixo plástico, que você encontra pela cidade toda, até na catinga. O cortejo sai da prefeitura, passa pela favela de Canudos e termina com um bolo no hotel São João Batista.  Aqui, quando a cabra dá cria, dois cabritinhos por parto geralmente, imediatamente se faz uma separação: um vai mamar o pouco leite da mãe, o outro, se tiver força e sorte, sobrevive à caridade das sobras da vida. Costumes de uma terra dura e seca. Ganhei uma credencial de imprensa. Um cordão com um cartão escrito OS SERTÕES - CANUDOS - IMPRENSA - TEATRO OFICINA UZYNA UZONA, daqueles que você põe no pescoço por cima da roupa. Amarrei nele um gangolo, um sino que todo bode tem no pescoço e que, pela batida, se sabe onde o bode está. Cada batida tem um tom diferente, um bode não é igual ao outro. Estou em Canudos. É longe, a água do chuveiro é fria, falta água pra muita gente, pra nós não, a comida é de visita, melhorou porque tem muita gente de fora aqui trazendo sua riqueza. Tem mototáxi que cobra por lugar, não por tempo, um lugar é um real, dois, dois reais. Vim aqui, viver o papel criado há 110 anos atrás pela coragem de um jornalista em busca da informação, trabalho que ele fez de navio, trem, lombo de jegue, a pé, graças ao apoio do jornal. Era no tempo do telégrafo e marcaria a primeira vez que uma guerra seria transmitida por aqueles toques elétricos. Mandou notícias, coração transpassado de desgosto, de uma guerra de irmãos, uma matança, uma sangueira, um horror de visão que perturbou toda sua vida e cinco anos depois, deu num livro chamado Os Sertões.  Vim aqui para homenagear esse homem, chorar e cair de joelhos frente à sua grandeza humana que deu em livro, que agora uma companhia de atores de teatro revive e presentifica, no mesmo chão que tem debaixo os corpos dos que tombaram nesta guerra fratricida, enterrados lá no cemitério coberto pelas águas do Açude de Cocorobó. Foi tudo revivido em 26 horas de luz, som, texto, canto, música, teatro interferindo na política da vida da cidade, inspirando o imaginário de toda gente para criação das infinitas possibilidades que se tem para viver a vida. No telefone, ao meu lado, a produtora pede os ônibus que vão levar a equipe pra o aeroporto e depois São Paulo. Pede um ônibus legal porque está todo mundo estourado. Sei! Se bem conheço a tribo, vão cantando no ônibus, no avião, até chegar em Sampa e se dissolver na multidão: "Trago o perfume das flores/ações multicores/nesta festa colossal./Eu sou o teatro brasileiro/da vida o espelho verdadeiro./Cantando neste carnaval/com a minha arte/que é imortal./Barreiras/as venço com bravura./Distribuindo a toda gente,/distração e cultura./Sou a magia permanente/que na história do Brasil/sempre se fez presente./Tenho beleza, sou a esperança, trago alegria neste dia de folia!/Eu quero..."  Tem dias que eu quase me sinto queimar como um fiozinho de cobre transmitindo uma carga de alta tensão. Evoé! PASCOAL DA CONCEIÇÃO, REPÓRTER DE ‘CULTURA E PAZ’ ENVIADO PELO JORNAL O ESTADO DE S. PAULOP.S. 1 Aos amigos do Caderno 2: gostaria de entregar pessoalmente a minha credencial de jornalista, que ganhei aqui em Canudos, ao Doutor Mesquita, encerrando essa missão de cultura e paz. Se vocês toparem, fazemos a cerimônia deentrega quando quiserem!P.S. 2 Dedico esse meu trabalho no jornal à memória do ator e diretor Luiz Antonio Martinez Corrêa

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