Diário de Canudos Parte 3 - O Caminho de Des-Compostela

Este caminho irá informar o Brasil e o mundo da riqueza que esta região tem para dar a todos nós

Pascoal da Conceição,

29 de novembro de 2007 | 17h32

Os atores me contam que as cinco apresentações da peça cumprem invariavelmente um roteiro com o público em todos os lugares que acontecem: o primeiro dia é nervoso, cheio daquelas "expectativas folclóricas", verdadeiras ou não, que cercam as apresentações do Oficina em qualquer lugar, no litoral ou no sertão. Pra ver, vem gente de todo tipo e jeito, até de salto alto, que os atores vão puxando para pista-palco, para participar, dançando e cantando, fazendo juntos o espetáculo que alegra a multidão. Dá medo, claro, dá vergonha de passar ridículo, mas não é nada grosseiro, é um namoro, uma paquera, um caminho de participação que vai melhorando dia a dia, apresentação por apresentação, por ambas as partes, público e atores, até chegar ao último dia, que é o dia mais calmo, mais silencioso e disciplinado de todos. Nem todos se despedem, alguns acompanham a caravana. Um rapaz de 16 anos, o que exigiu que a produção tivesse que resolver documentação com o juizado de menores, foi agregado ao coro de soldados, depois que se apaixonou pelo grupo na última apresentação em Quixeramobim, terra de nascimento de Antônio Conselheiro. Hoje é quarta-feira. A hora da estréia está chegando. Será daqui a pouco, cinco e meia, quando começa a anoitecer. Hoje é dia de Lua Cheia plena. Todo mundo está nervoso. Eu corro pra cima e pra baixo tentando encontrar uma lan-house daqui de Canudos de onde possa mandar, além dessas letras ao jornal, fotos dos acontecimentos. A internet chegou por aqui faz um ano e só fez crescer de usuários o tempo todo. Jovens, estudantes, na maioria mulheres. A cidade tem reservada para seu uso entre 300 e 400 kabytes, que agora já não dão mais: p. ex., só o Oficina, que vai transmitir ao vivo as apresentações, já está usando metade dos bytes, sem contar esse mundo de gente que vem chegando e se juntando ao povo daqui no uso da comunicação online. Deixa a internet molinha, vagarosa... Oh, meu pai! Na preleção de ontem, Zé Celso falou do arrazoado que escreveu ao ministro da Cultura, com uma forte descrição de fatos fundamentados para a constituição da região entre cidades de Quixeramobim e Canudos como patrimônio histórico, cultural e artístico do País. Todo mundo riu quando Zé disse que seria um caminho de São Tiago da des-compostela, do desbunde. A alegria é a prova dos nove. E é séria, muito séria a importância para o desenvolvimento e aguamento da economia da região, esse caminho que irá informar o Brasil e o mundo da riqueza, no sentido integral da palavra, que esta região tem pra dar a todos nós. O ministro recebe a carta no sábado numa cerimônia no Rio de Janeiro. Ambições por escrito dos artistas do teatro, que tanto discutem e projetam transmutações felizes para o imaginário de esperanças do povo brasileiro. Daqui donde escrevo vejo alguns atores que estão dando água para um jegue. Ele é cinza e branco e está paramentado com uma cela bem bonita. Na certa vai entrar em cena. Está chegando a hora. O ingresso custa um real, vai ferver de gente pra ver o bicho pegar, gente que vai mandar pra todos daqui e daí as notícias mais fresquinhas das vitórias dessa gente sertaneja. Deus é pai! Vou dar um mergulho no açude de Cocorobó e depois "vou pro campo de futebol ver o teatro", que é como o povo daqui fala. Amor a todos, a tudo, amor em todos os seus beijos: Dionízios não barra ninguém. Merda! PASCOAL DA CONCEIÇÃO - REPÓRTER DE ‘CULTURA E PAZ’ ENVIADO PELO JORNAL O ESTADO DE S.PAULO, 110 ANOS DEPOIS DE EUCLIDES DA CUNHA

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