Diário de busca por um pai morto

De Flávia Castro, na quinta foi exibido o último concorrente nacional de Gramado, que entrega seus Kikitos hoje à noite

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2010 | 00h00

E o 38.° Festival de Gramado termina hoje à noite com a entrega dos Kikitos para os melhores do cinema brasileiro e latino em 2010. Na quinta, foi exibido o último concorrente brasileiro, Diário de Uma Busca, de Flávia Castro, precedido do mexicano Perpetuum Móbile, de Nicolás Pereda. Ambos tratam de família. No documentário nacional, a autora tenta decifrar o mistério da morte do pai, ex-exilado político que tombou numa tentativa de assalto em Porto Alegre. Na ficção do México, mãe e filho tentam aparar arestas. Ele trabalha no transporte de mudanças. As pequenas histórias de rompimentos, separações e reuniões - flagradas por meio dessas mudanças - talvez sejam mais interessantes do que a trama que amarra todas as outras.

Contando uma história parecida com a do filme brasileiro, o chileno Germán Berger transformou seu documentário Minha Vida com Carlos num épico da resistência. Uma diferença fundamental é que Flávia, ao contrário dele, conheceu seu pai. Mas ela não decifra e esse pai permanece um enigma, e o que resta é o sentimento de culpa da mãe, que assume que se deu melhor na vida do que o ex-marido, e até rancor, quando ela observa que ele, ao morrer, mais uma vez abandonou os filhos. O interessante é o resgate de uma história errática, não tão heroica, da esquerda brasileira, incluindo os personagens da grande História, que vão sendo pincelados.

Todos sabem que a história, contada pelos vencedores, raramente é favorável aos caídos. Conscientemente, ou não, a trama de Flávia de alguma forma reproduz o discurso dominante, pois ela não resgata o grande caído, esse pai que permanece secreto e destituído de todo heroísmo. Mas o filme é forte, rico em informações e o grau de auto-exposição da autora revela muita coragem. Ainda faltava ser exibido, ontem, o último concorrente latino - La Yuma, de Florence Jaugey, da Nicarágua. Os curtas melhoraram bastante desde o desastroso primeiro dia e o último programa, na quinta, foi o melhor, com destaque para Haruo Ohara, de Rodrigo Grota, e a bela animação Os Anjos no Meio da Praça, de Alê Camargo e Camila Carrossine. O júri de longas brasileiros, integrado, entre outros, pela diretora Susana Amaral e pela pesquisadora Ivana Bentes, leva jeito de privilegiar a pegada de Jorge Duran em Não Se Pode Viver Sem Amor ou a egotrip de Flávia de Castro, mas seria injusto esquecer as belas qualidades de Bróder, de Jefferson De.

O júri latino tem dois belíssimos filmes sobre os quais se debruçar - o chileno de Germán Becker e o colombiano El Vuelcro Del Cangrejo, de Oscar Ruiz Navia. Outros dois concorrentes - o argentino La Vieja de Atrás, de Pablo Meza, e o filme mexicano - afinam-se na descrição de um universo urbano de solitários, mas não são tão bons. A palavra é dos júris, no plural, pois eles incluem o popular, que vai atribuir os Kikitos de melhor filme brasileiro e latino. Desse júri participa Maria Alzira Marinho Garcia, leitora do Estado.

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