Diário a salvo dos militares

Editado em Buenos Aires, Ese Hombre y Otros Papeles Personales traz os textos finais

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2010 | 00h00

Uma ação entre amigos permitiu que os papéis pessoais de Rodolfo Walsh não se perdessem. Alguns dos documentos que foram pilhados do arquivo do jornalista e escritor na mesma noite de seu desaparecimento, a 25 de março de 1977, foram recuperados - alguns de maneira heroica, pois envolveram riscos - e, unidos, formaram o volume Ese Hombre y Otros Papeles Personales, lançado na Argentina em 1995 e reeditado em 2007, pela Ediciones de La Flor, com acréscimos e ajustes preciosos.

Trata-se da reunião de escritos produzidos entre 1957 e 1976. Walsh era um autor zeloso com datas, dono de uma caligrafia apurada e pouco afeito a rasuras. A essência do material preservado revela um criador preocupado com seu ofício - "um viciado em literatura", conforme comentário de Ricardo Piglia.

O primeiro texto é uma pequena autobiografia. Ali, Walsh brinca com o próprio nome ("Não serve para presidente da República") e lembra com carinho do pai ("Falava com os cavalos. Um o matou, em 1947") e da mãe ("Vivia em meio a coisas que não gostava: o campo, a pobreza") e com desprezo do primeiro livro ("Escrevi em um mês, sem pensar na literatura, apenas na diversão e no dinheiro").

São os escritos finais, no entanto, os mais emocionantes. Em outubro de 1976, Walsh descobre uma filha - a mais velha, Victoria - entre os assassinados do dia pelo regime militar. "Não pude me despedir. Morremos perseguidos, na obscuridade. O verdadeiro cemitério é a memória." E arremata: "Gostaria de dormir e acordar em um ano".

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