Diante das armadilhas da interpretação

Dimensionar a importância da obra máxima do alemão Hans-Georg Gadamer (1900 -2002), Verdade e Método, que completa meio século este ano, não é tarefa que caiba neste espaço. Para se ter uma breve ideia, no entanto, basta dizer que, nos últimos 50 anos, as ciências humanas passaram por um rigoroso processo de reformulação, com enormes consequências nos modos e nos resultados de pesquisa. E desse processo participa, direta ou indiretamente, Verdade e Método (a edição brasileira disponível, em dois volumes, é da Vozes). Da antropologia à linguística, da sociologia à teoria literária, da teologia à jurisprudência, praticamente todos os ramos do conhecimento humanístico foram, em algum grau, afetados pelas ideias que Gadamer expôs em sua notável teoria da interpretação. Por isso, Verdade e Método pertence ao seleto e restrito grupo de obras teóricas seminais do século 20, ao lado de, entre outras, Curso de Linguística Geral, Tristes Trópicos e Da Gramatologia. Por isso, também, no mundo inteiro, congressos estão sendo organizados e publicações lançadas com o propósito de celebrar e discutir o legado de Verdade e Método.

Mario Higa, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

O tratado de Gadamer chamou-se de início Hermenêutica Filosófica. O editor que recebeu os originais rejeitou o título por considerar "hermenêutica" uma palavra muito obscura. Hoje, ironicamente, Gadamer é considerado um dos fundadores - ao lado de Paul Ricoeur - da moderna hermenêutica, termo que ajudou a resgatar e redefinir. Conhecida como ciência da interpretação de textos, cuja tradição remonta à Grécia antiga, a hermenêutica em seus primórdios, e até o século 19, pressupunha o estabelecimento de um método de leitura pelo qual fosse possível a uma comunidade de leitores chegar às mesmas verdades fundamentais sobre um dado texto. Nesse sentido, Verdade e Método é um título enganoso.

O estudo de Gadamer não propõe um "método" de interpretação nem concebe a "verdade" como conceito estável, derivado da razão metódica, tal como preconizado por Descartes e pelos iluministas no século 18. Para Gadamer, todo entendimento é um efeito da história, cuja percepção depende do repertório cultural do observador. A instabilidade desse repertório, que contínua e periodicamente sofre alterações, torna falível qualquer método de interpretação proposto como definitivo. Para responder à contingência do entendimento e seu estatuto provisional, ou seja, para descobrir-lhe uma base comum de articulação, Gadamer elabora o conceito, hoje clássico, da "fusão dos horizontes", no qual intérprete e objeto da interpretação buscam um acordo por meio do diálogo. Para Gadamer, portanto, o entendimento nasce de uma negociação entre interpretante e interpretado, ambos situados histórica e linguisticamente.

Por esse sumário, vê-se que Verdade e Método, refazendo e ampliando caminhos abertos sobretudo pela filosofia alemã do século 19 (Schleiermacher e Dilthey) e 20 (Heidegger), altera o questionamento central da hermenêutica antiga, deslocando-o dos limites do pragmatismo ("como interpretar") para os da teoria do conhecimento ("o que é a natureza da interpretação"), cuja práxis não se fundamenta no resultado da operação hermenêutica, mas na operação em si. Isso não implica, como se poderia supor, descritivismo ausente de revisionismo crítico. Ao contrário, o estudo de Gadamer desenvolve-se em grande parte em torno da ideia básica de que o método obstrui a verdade, se por método se entender a via cartesiana, e por verdade, a noção ortodoxa de correspondência, representação ou adequação. Esse conceito de verdade, vigente na filosofia desde Platão, desconsidera especificidades culturais do sujeito histórico, que procura abolir "cientificamente" por meio da formulação de postulados de valor universal. Para Gadamer, no entanto, o universalismo é um sonho e uma falácia da ciência, pois descarta a historicidade do intérprete. No curso da história, todo entendimento é tentativo, e todo significado, dialógico.

No campo da teoria literária, a contribuição de Gadamer é ampla e decisiva. Verdade e Método rejeita a hermenêutica romântica, que, entre outros procedimentos, diviniza o momento psicológico do autor no ato da criação e toma esse instante de vivência interior como categoria interpretativa, da qual dependeria o leitor para formar o sentido integral de uma obra. Como muitos filósofos de sua geração, Gadamer desconfia do alcance da subjetividade. Além disso, centralizar a interpretação no sujeito autoral significa negar a hermenêutica do diálogo, cuja negociação do sentido deve ocorrer entre os horizontes do intérprete e o da obra interpretada. Vale lembrar que pressupostos de hermenêutica romântica dominavam extensos setores da crítica literária em 1960, ano de publicação de Verdade e Método.

Como contraponto à centralização e divinização do sujeito e da subjetividade, Gadamer oferece e analisa o conceito de R. G. Collingwood, professor de filosofia de Oxford na década de 1930, denominado "lógica da pergunta e resposta". Collingwood entende todo texto como um evento cultural cujas motivações são essencialmente históricas. Portanto, além de não ser possível, não é necessário penetrar na mente de um autor para melhor entender as razões que o levaram a produzir uma obra. Como parte integrante do discurso histórico, toda obra responde a uma pergunta disponível na cultura de seu tempo. Ao intérprete, pois, cabe formular adequadamente essa pergunta, cujo conteúdo iluminaria o entendimento da obra sob análise. Para tanto, o esforço hermenêutico deve reconstruir em detalhes não o momento psicológico da criação, mas, sim, o meio cultural que a possibilitou.

Para Gadamer, a lógica da pergunta e resposta, embora apresente vantagens, sobretudo a de possuir uma estrutura dialógica, traz consigo um problema: considera o passado como um quadro estático. Collingwood pretendia que, auxiliado por uma arqueologia cultural ou hermenêutica de resgate histórico, o leitor moderno pudesse ler Byron ou Goethe por meio do horizonte dos leitores contemporâneos desses escritores. Com isso, é certo, a lógica da pergunta e resposta combate outro equívoco da hermenêutica romântica, o de ler distorcidamente o passado com olhos do presente para justificar valores do presente. Por outro lado, ler nitidamente o passado com olhos do passado, como propõe Collingwood, equivaleria a um contraequívoco, o de ignorar a historicidade do leitor.

Entre outros enquadramentos possíveis, a publicação de Verdade e Método localiza-se nesse ponto, entre o colapso da hermenêutica romântica, para o qual contribui, e o impasse do historicismo moderno, para o qual também contribui. Desde então, a presença de Gadamer no debate cultural das ciências humanas só tem feito crescer. Isso apesar da resistência de teóricos marxistas, que veem como conservadoras as postulações gadamerianas sobre autoridade, tradição e cânone. A efeméride que se celebra este ano serve de ocasião para que Verdade e Método seja repensado sob a luz de cinco décadas de recepção crítica e para que sejam propostas alternativas renovadas de leitura da obra de Gadamer.

MARIO HIGA É PROFESSOR DE LITERATURA LUSO-BRASILEIRA NO MIDDLEBURY COLLEGE EM VERMONT (EUA) E ORGANIZADOR DE POEMAS REUNIDOS, DE CESÁRIO VERDE (ATELIÊ).

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