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Dianne Reeves se apresenta no Brasil na próxima semana

Cantora da trilha de 'Boa Noite e Boa Sorte' diz que Obama fez dos EUA um país digno de se viver

ANTONIO GONÇALVES FILHO - O Estado de S.Paulo,

18 de setembro de 2012 | 03h10

A sexta edição da série Jazz All Nights traz este ano uma cantora três vezes premiada com o Grammy de melhor vocalista de jazz, Dianne Reeves, mais conhecida por ser a intérprete de quase todas as músicas do filme dirigido por George Clooney, Good Night, and Good Luck (Boa Noite e Boa Sorte), sobre a perseguição macarthista nos EUA dos anos 1950 - mais especificamente, a do jornalista Edward R. Murrow, acusado de atividades comunistas pelo senador Joseph McCarthy, que saiu chamuscado do confronto.

Dianne canta primeiro no Rio (dias 24 e 25, no Teatro Oi/ Casagrande) e depois em São Paulo (dia 26, no Teatro Bradesco/Shopping Bourbon). Ela ainda está mexendo no repertório do show, que vai ter participação especial do violonista carioca Romero Lubambo, mas já adiantou, por telefone, que vai cantar também MPB - cita nominalmente Ivan Lins. Dianne Reeves, que no começo de carreira cantava música latina com o grupo Caldera e se apresentou com o conjunto de Sérgio Mendes, conhece um bocado de canções brasileiras - e, para provar, canta um trecho de uma favorita, Casa Forte, de Edu Lobo.

É de fato um privilégio ouvir Edu Lobo ao telefone pela melhor vocalista de jazz - e uma voz a serviço da melhor tradição do gênero. Prima do tecladista George Duke, que gravou ao lado de brasileiros como Milton Nascimento e Airto Moreira, Dianne Reeves diz que não planejou sua carreira com foco num único segmento jazzístico. Tanto é verdade que foi uma surpresa para ela a escolha do seu nome para integrar a trilha de Good Night, and Good Luck, repleta de baladas clássicas. Inicialmente, imaginava que os planos do diretor George Clooney se resumiam a usar sua voz de contralto numa única faixa, mas o cineasta selecionou para ela nada menos do que 14 standards da música americana - de Solitude, de Duke Ellington, a How High the Moon, de Morgan Lewis. Só uma faixa do CD é instrumental, contando com o mesmo combo que a acompanha, em que se destacam o pianista Peter Martin, seu diretor musical, e o saxofonista Matt Catingub.

"Peter Martin estará comigo no Brasil, claro, além do baixista Chris Thomas e do baterista Terreon Gully", adianta a cantora. Martin a ajudou a captar o espírito da época de Good Night, and Good Luck. "Como você sabe, George é sobrinho de Rosemary Clooney (1928-2002) e a tia cantava todos esses standards para ele." A tia, como o sobrinho, era democrata. Bipolar, teve uma crise depressiva quando seu amigo Robert Kennedy, então em campanha presidencial, foi assassinado, em 1968. O filme, assim, foi também uma homenagem a Rosemary. Dianne, que é democrata e votou em Obama, diz ter sido uma honra integrar o filme de Clooney, um acerto de contas com a direita hidrófoba americana.

"Eu passei minha adolescência ouvindo Nina Simone, e não apenas sua música, mas seus discursos contra a segregação racial; então, penso que é um retrocesso alguém como Clint Eastwood vir a público e dizer que a cadeira do presidente americano está vaga, ignorando o que Obama fez pela democracia dos EUA, tornando-o um país mais digno para se viver." Dianne Reeves não sofreu discriminação como Nina Simone, obrigada a abandonar seus estudos de música clássica por ser negra e rejeitada em todas as faculdades. Dianne, que nasceu numa família musical ("minha mãe tocava trompete, imagine" ) começou a estudar piano, mas descobriu cedo, aos 11 anos, que queria mesmo era ser cantora. Isso não a afastou do mundo erudito. Ela já gravou com a Sinfônica de Chicago, dirigida por Daniel Barenboim, e foi solista em concertos da Filarmônica de Berlim sob a batuta de sir Simon Rattle.

A cantora começou sua carreira solo há exatos 30 anos. Um ano antes, em 1981, ela fez uma turnê com Sérgio Mendes. Lembra com carinho do músico. Diz que foi de tanto fazer vocalise que desenvolveu um desejo incontrolável de colocar letras em peças instrumentais brasileiras. "Ficava ouvindo essas músicas e imaginava o que o compositor queria dizer com elas", conta, revelando que seus primeiros passos como letrista foram dados na época em que fixou residência em Los Angeles.

Uma das qualidades musicais de Dianne Reeves, aliás, é esse sentido rítmico que não a prende num só estilo. Como se disse, ela começou sua carreira como integrante do Caldera, grupo de jazz fusion dos anos 1970 que definiu sua afinidade com a música latina - e aproximou-a de Romero Lubambo. "Para o público europeu, essa mistura parece uma coisa um tanto exótica, mas os brasileiros enxergam de outra maneira as improvisações que fazemos no palco, são mais abertos à fusão entre gêneros."

O que ela quer dizer, em síntese, é que seu show terá tanto um diálogo agitado com Lubambo como baladas (possivelmente Misty) e composições próprias - em maio, num show no histórico Howard Theatre, ela cantou a emocionante Better Days, tributo intimista feito em 1987 para sua avó. Em seu mais recente disco, When You Know (2008) ela incluiu outra composição sua, Today Will Be a Good Day. E não esqueceu sua ligação com o Brasil: uma das mais belas faixas é sua gravação de Once I Loved, com Lubambo acompanhando ao violão a voz sensual de Dianne Reeves cantando Tom Jobim.

Há, segundo ela, um interesse renovado pela bossa nova, motivado pelas informações que circulam na internet. "Nos anos 1960 e 1970, era preciso que os músicos estivessem nos EUA para divulgar a bossa, mas a rede tornou nosso mundo pequeno, o que é bom para Jobim e a MPB."

DIANNE REEVES

Teatro Bradesco. Rua Turiassu, 2.100, Shopping Bourbon.

Dia 26, às 21 h. De R$ 60 a R$ 150.

Vendas: 4003-1212 ou na bilheteria.

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