Ernesto Rodrigues/AE
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Diana Krall, uma diva classe média

A canadense Diana Krall tem 45 anos e 18 de carreira. A maioridade artística, porém, ainda não foi atingida. A cada novo disco - e a coleção já tem 12 deles - sua conversão ao comercialismo barato parece mais acentuada. Já fez campanha publicitária para carros japoneses e agora se dedicada a pasteurizar o jazz e a bossa nova, como se viu em sua estreia, anteontem, no HSBC Brasil, um show em que misturou sem muita cerimônia Tom Jobim, Burt Bacharach, Cole Porter, Tom Waits e Nat King Cole. O que têm em comum uma canção como I"ll String Along With You, que Nat King Cole escreveu com Harry Warren e Al Dubin quando tocava com seu trio, e Clap Hands, que Tom Waits compôs para seu nono disco, Rain Dogs? Nada. A incoerência de Diana, porém, vai além da escolha do repertório.

Crítica: Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2010 | 00h00

Waits fala de pessoas que perderam há muito tempo o caminho de casa, que vivem feito cães sarnentos molhados pela chuva. Nat Cole acreditava que pessoas fossem anjos a guiar desalmados pela trilha certa. Diana está mais para o positivismo do último. Tanto que, ao cantar I"ll String Along With You, lembrou dos seus gêmeos Dexter e Frank, de quatro anos. Seus ouvintes abastados que lotaram o HSBC - pagando até R$ 400 para ouvir a diva classe média - deliraram com a meiga menção aos garotos. O casamento com Elvis Costello não foi nada bom para o lado musical de Diana. Foi por causa dele que ela começou a cantar Burt Bacharach. Azar do jazz. E de Tom Jobim, que sofreu com seus sussurros em português - outra concessão à plateia - na interpretação de Esse Seu Olhar (1959). So Nice (Samba de Verão) e Quiet Nights (Corcovado) sofreram menos em inglês, mas Diana sem o arranjador alemão Claus Ogerman parece naufragar na praia da bossa nova.

Diana já foi uma cantora e uma pianista mais criteriosa - lembrou até de sua passagem pela Berklee College of Music de Boston, quando tocou para Oscar Peterson. Hoje, cerca-se de bons músicos para compensar seus burocráticos shows, apoiando-se particularmente na guitarra de Anthony Wilson, responsável pelas melhores introduções da noite, em especial a de Quiet Nights. Wilson é discreto, tem timing perfeito, é um bom compositor e, além de tudo, gravou novo disco com o pianista brasileiro André Mehmari. Desde 2001 com a cantora, é natural que seja a força motriz do quarteto.

Wilson não tenta forçar uma ponte entre a bossa nova e o jazz da Costa Oeste. Respeita a linguagem e a autonomia de Jobim. O mesmo não se pode dizer de Diana, obcecada pela ideia do crossover para se acomodar ao gosto médio - e a citação musical de She"s So Heavy, dos Beatles, ao final de Clap Hands, de Tom Waits, parece suficiente para desfazer qualquer dúvida a respeito. Pena. Ela já teve dias melhores. Hoje, veste-se com restos de cortina como Scarlett O"Hara (um vestido vermelho para lá de duvidoso) e encerra o show com Walk on By, de Bacharach.

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