Diálogos sem limites de Miranda July

Atriz, diretora, performer, ela mistura tudo no longa O Futuro, que esteve nos festivais de Sundance e Berlim em 2011

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2013 | 02h11

Miranda July pode não ser uma unanimidade, mas em pouquíssimo tempo a atriz, roteirista e diretora adquiriu uma reputação que ultrapassa os limites do cinema. Miranda também faz performances, monólogos, vídeos musicais, escreve livros. Sua arte é interdisciplinar.

Um filme não é só um filme, mas pretende sempre dialogar com outras formas de expressão. Um exemplo disso é o novo longa da artista, que estreia hoje - O Futuro. Sucesso no Festival de Sundance de 2011, também competiu no Festival de Berlim. Não ganhou nada, mas os tietes de Miranda adoraram.

Eles sempre adoram o que ela faz e, desta vez, Miranda conta a história de um jovem casal em crise. Ela própria faz a protagonista feminina. Chama-se Sophie. É casada com Jason (Hamish Linklater) e os dois chegam àquele momento que antecede a ruptura. Na tentativa de se manterem juntos, assumem um compromisso - não um filho, mas um gato. Adotam um bichano abandonado, Paw Paw. O fato, em si, não tem nada de extraordinário, mas Sophie e Jason vão mudar radicalmente suas vidas, testar seu amor - e também a fé na humanidade.

Orçado em US$ 1 milhão, o filme rendeu a metade nas bilheterias dos EUA e da Inglaterra. Um fracasso, portanto, mas existem outras maneiras de se testar o sucesso de um filme. E, para muita gente, o futuro, segundo Miranda July, vem acompanhado de uma lufada de ar fresco e criatividade que arejam o cinema atual. Ela certamente não é uma diretora nem uma artista convencional. O Futuro constrói-se por meio de meios tons e indiretas. Miranda não é uma "narradora". Seus filmes, na verdade, tergiversam.

O casal se define por meio de pequenas ações e diálogos. Nada parece muito relevante, mas, como Miranda diz, "é desse jeito que as pessoas terminam se revelando". "Vivemos num mundo em que aquilo que as pessoas dizem ou fazem nem sempre é aquilo em que acreditam. É preciso fazer uma seleção. Às vezes, é preciso ser banal para chegar ao essencial." O risco, nisso tudo, é se dar excessiva importância. Miranda se justifica: "Tenho encontrado gente interessada em minhas observações, pessoas que se identificam com elas. E é esse público que me interessa atingir, como se fosse uma conversa de amigos. Claro, seria bom se o círculo se ampliasse".

Pergunte a Miranda quais os autores que mais a interessam e ela não vacilará. Paul Thomas Anderson, Spike Jonze, Todd Solondz e duas mulheres - Andrea Arnold e Jane Campion. O que toda essa gente tem em comum é o desejo de fazer filmes autorais - de forma independente, ou no esquema de estúdio. "Só consigo fazer o que me interessa. Não é que seja egoísta ou autocentrada. Um filme consome muita energia, muito trabalho. Seria horrível me dedicar por um longo tempo a uma coisa com a qual não estivesse totalmente comprometida."

Escolhas. Em Berlim, as maiores críticas a O Futuro vieram de críticos que não se conformaram com o fato de Miranda atribuir a um gato a importância que eles, com certeza, prefeririam ver aplicada a crianças carentes e miseráveis de todo o mundo. Miranda, mais uma vez, defendeu-se. "Não estou dizendo que a solução, no futuro, é adotar animais em vez de crianças. Mas as escolhas são individuais e muita gente prefere os gatos. Eles são companheiros sem abrir mão da individualidade. São independentes. Gatos, na verdade, são amigos fantásticos."

Filha de pai judeu e mãe protestante, Miranda desde cedo foi encorajada pela família a pensar por ela mesma. O pai chegou a fundar uma revista sobre saúde, artes marciais e contracultura. Assim, os interesses variados nunca foram conflitantes. E esta foi uma lição que Miranda admite ter absorvido por toda a vida. "Ninguém é produto de uma só cultura, uma só crença, principalmente nesse mundo louco em que vivemos. A internet despeja sobre nós mais informações do que jamais tivemos. Nem tudo merece credibilidade, é certo, mas é como acontece com os filmes. Eles não precisam ser de um só jeito. É como ir ao supermercado. As prateleiras são cheias. Você não vai comprar tudo. Fazer suas escolhas é fundamental."

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