Diálogos na Amazônia

O fotógrafo Araquém Alcântara e o chef Alex Atala lançam livro de expedições

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2011 | 03h07

O fotógrafo Araquém Alcântara e o chef Alex Atala têm experiências em comum no território amazônico. O avô do último, um aventureiro inglês, foi mandado à Amazônia boliviana por uma empresa londrina que comprava látex dos caboclos. Passou alguns anos por lá, casando-se com uma índia boliviana. O próprio Alex, seguindo o exemplo do avô, já se aventurou em inúmeras expedições amazônicas, chegando a ser sequestrado por índios, experiência pela qual passou igualmente o fotógrafo Araquém, que completa 40 anos de carreira lançando com o chef Atala o livro Amazônia.

Também em parceria e pela mesma editora, TerraBrasil, fundada pelo fotógrafo, ele lança o livro Cachaça, que tem prefácio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e texto do sommelier Manoel Beato (leia abaixo). Não são apenas curiosas parcerias - uma com um especialista em gastronomia e outra com um respeitado degustador de vinhos que, desde 2008, apresenta o programa Adega Musical, na Rádio Eldorado. Os dois livros revelam um Brasil que poucos conhecem - e, como se diz, é preciso conhecer para preservar, não só a natureza da Amazônia, mas a cultura da degustação, tanto da comida amazônica como da mais típica bebida brasileira, a cachaça.

A história da relação entre Araquém, Atala e a Amazônia já tem mais de 30 anos. Ambos fizeram uma centena de viagens à região no período. Araquém se descobriu fotógrafo da natureza ao topar com uma onça bebendo água num igarapé, em 1979. Desde então, decidiu que iria fotografar não só a floresta amazônica como todos os parques nacionais, a exemplo do que fez Ansel Adams (1902-1984) nos parques americanos. Atala teve também num momento epifânico, intuindo que seu trabalho missionário seria o de cruzar o que ele chama de "a próxima grande fronteira do sabor". Hoje, inclui em seus pratos ingredientes da Amazônia, como a pripioca (uma raiz aromática), a folha do jambu, o tucupi e o cupuaçu, que apresentou à cultura gastronômica europeia, revolucionando suas tradições culinárias.

Assim como Araquém, que descobriu a dificuldade de se fotografar os parques amazônicos sem ser incorporado gradativamente ao ambiente, Atala concluiu que não daria para descobrir o gosto da Amazônia em restaurantes. Há dois anos, num lugar já fotografado por Araquém, Cabeça de Cachorro, no Noroeste da Amazônia - tema de um livro homônimo em parceria com o médico Drauzio Varella -, Alex topou com uma índia baré, a dona Brasi, que vendia seus quitutes na feirinha de São Gabriel da Cachoeira. Foi com ela que descobriu uma receita de tucupi com saúva depois levada a um encontro gastronômico na Bélgica. A princípio desconfiados do formigão, chefs e críticos de gastronomia fizeram cara feita para a saúva, mas essa resistência foi vencida na primeira garfada.

O livro Amazônia não é, porém, um exercício apologético. Araquém fotografa a exuberância da região com um olho e a sua destruição com outro - 20% da maior floresta do planeta, ou o equivalente a duas Alemanhas e três Estados de São Paulo, lembra o fotógrafo, já desapareceram. O registro da paisagem e dos seres que habitam a floresta, justifica o fotógrafo, faz parte de sua luta política pela preservação ambiental. Ela o fez decidir, na hora de escolher a foto da capa do livro, pela imagem de um indiozinho com um caju na boca e uma tiara feita com penas de urubu-rei, da tribo zoé. Esses índios, que ocupam terras próximas ao Rio Cuminapanema, no Pará, formam, segundo ele, uma tribo de 230 pessoas, só contatada em 1995.

Visitando os confins da Amazônia em suas expedições, o fotógrafo acumulou acervo de 150 mil imagens e já publicou cinco livros. "Comecei fotografando a Amazônia como se estivesse na janela de um foguete, mas estou indo cada vez mais longe em busca de tribos isoladas para fazer um livro que vai se chamar Iauaretê." O nome evoca o conto de Guimarães Rosa sobre um tio do narrador que se transforma em onça, bicho mágico na cosmovisão dos povos da floresta. Antes disso, a carreira de Araquém já registra sua primeira incursão internacional no cinema. Ele aparece no primeiro filme em 3D rodado na Amazônia por uma equipe francesa, a história de um macaco que cai de uma avião próximo ao Monte Roraima. E sobrevive. O filme de Thierry Ragobert, Amazônia, Planeta Verde, estreia em 2013.

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