Diálogos e atritos em torno do Brasil

As relações entre Oliveira Lima, Nabuco e Sérgio Buarque

Antonio Arnoni Prado, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2011 | 00h00

Quando se iniciou na crítica, ainda adolescente, à frente do Correio do Brasil - revista que fundou em Lisboa com apenas 15 anos de idade -, Oliveira Lima talvez pensasse em fazer dessa modesta incursão editorial uma afirmação acadêmica do aluno aplicado que ele sempre foi. Ou, mesmo, em amenizar a distância da pátria com uma razão de trabalho que o reintegrasse à cultura do país de origem, de que tanto se ressentia.

Como é natural, não escapou - nesses esboços precoces - à indefinição de critérios e ao arroubo dos juízos críticos, que nem sempre correspondiam à verdade dos fatos e dos temas analisados. É um desses arroubos que o aproxima de Joaquim Nabuco no dia 14 de outubro de 1882, quando este último, então correspondente do Jornal do Commercio na Inglaterra, decide enviar ao jovem diretor do Correio uma carta de agradecimento por haver recebido da revista uma singela nota biográfica.

Na carta, depois de agradecer a simpática deferência e em particular o privilégio do retrato que a encimava, Nabuco nos dá bem a medida do que foram aqueles escritos arrebatados do rapazinho Lima em Portugal. Num primeiro momento, por registrar a surpresa de haver sido biografado por um menino ainda em botão, que desabrochava "encantado pelo sol da pátria". E em seguida por tentar desfazer o tom excessivamente idealizado do artigo, fazendo ver ao rapaz que - bem ao contrário do que o seu texto sugeria - nada havia de desterro em sua recente expatriação para Londres. "O meu desterro em Londres não é voluntário" - escreve Nabuco, por certo aludindo ao fato de que, mesmo depois de haver lançado com André Rebouças a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, não conseguira eleger-se para o primeiro distrito da Corte. "Se se pode chamar de desterro, acrescenta, ele me foi imposto por circunstâncias inteiramente alheias à minha vontade", o que nem de longe permitia afirmar, como fazia o Correio, que ele estivesse na Europa representando para a escravidão "o papel de Victor Hugo para o Segundo Império nem o de Luiz Zorilla para com a monarquia dos Bourbons". Muito ao contrário, Nabuco explica, estava ali simplesmente tratando de ganhar a vida como "um emigrado que deixara o Brasil por discordar da escravidão que o infestava".

Mais tarde, já na carreira diplomática como primeiro secretário da Legação Brasileira em Washington, sob as ordens de Salvador de Mendonça, e tendo acabado de publicar, além dos Aspectos da Literatura Colonial Brasileira, uma série de artigos que apareceram na Nouvelle Revue sob o título de Sept Ans de Republique au Brésil, Lima discordará de Nabuco em relação aos acontecimentos que se seguiram à deposição de Pedro II.

É do próprio Nabuco, em carta de 28 de novembro de 1896, a impressão de um Oliveira Lima cheio de esperanças no regime que se instalara no Brasil em novembro de 1889. "Infelizmente - escreve então ao ex-crítico do Correio do Brasil -, o seu espírito sofre do mal oposto ao que me atacou, o seu otimismo é tão doentio como o meu pessimismo, ainda que a sua doença seja mais alegre e divertida do que a minha." É que, naquela altura, a República significava para Nabuco uma espécie de anuência nacional prestes a precipitar o Brasil na irremediável decadência das repúblicas hispano-americanas, coisa contra a qual - a seu ver - só a Monarquia, de que era então um dos paladinos ilustres, poderia evitar.

Ardor ideológico. O reparo de Nabuco vinha também como resposta tardia ao tom restritivo com que, anos antes, Oliveira Lima comentara pelas páginas do Correio do Brasil o livro O Abolicionismo, que o autor de Minha Formação publicara em Londres, em 1883. Naquele texto, apesar de reconhecer em Nabuco o estilo simples e enérgico que o consagrou, Lima considerava que o ardor ideológico o impedia de perceber a verdade, levando-o a alguns exageros incontornáveis, como por exemplo o de afirmar que a Igreja brasileira nada fizera em favor da Abolição e o de dizer que a lei Rio Branco revelara defeitos e pouco espírito humanitário, quando de fato - contra-argumenta - se tratava de um diplomata sincero e verdadeiramente abolicionista, na real significação da palavra.

A verdade é que essa controvérsia isolada entre o então editor do Correio do Brasil e o célebre monarquista exilado na Europa representou, na trajetória de Oliveira Lima, uma espécie de revelação premonitória que a resposta retardada de Nabuco vinha agora confirmar. De um lado, pela transformação das convicções políticas em jogo, que acabarão depois se invertendo: Nabuco passando-se para as hostes republicanas, cujo regime defenderá com brilho na esfera internacional e em particular nos Estados Unidos, onde seria inclusive nosso primeiro embaixador; Oliveira Lima convertendo-se aos quadros da Monarquia, em razão da qual acabaria se indispondo com o governo republicano, que passará por cima de sua inestimável contribuição diplomática e o abandonará à própria sorte, até a decisão de exilar-se nos Estados Unidos, onde passará o resto da vida e acabará sepultado. E, de outro, pelo percurso intelectual voltado para o cosmopolitismo da belle époque (os salões, os espetáculos, as salas de conferência) e o fascínio pela oratória institucional, temperado pela nota inventiva da historiografia de Oliveira Martins, que o estimulava a ver na história dos homens e de sua cultura um exercício de "ressurreição artisticamente construída".

Compreende-se, assim, que, ao imaginar, na base de sua crítica madura, a construção hermenêutica de um panteão nacional inspirado nos modelos consagrados pela tradição lusitana, o método de Oliveira Lima, mais do que descrever, analisar e avaliar a produção dos escritores brasileiros dentro do seu próprio sistema literário, o que fará é convertê-los num segmento secundário do sistema de origem, suprimindo na própria fonte não apenas a autenticidade dos temas e dos processos não codificados, como também a representatividade da comunicação efetiva dos autores com o seu público, para não falar da representatividade da própria língua, cuja expressão e pesquisa quase nunca mereceram dele um registro que se livrasse da mera notação de exotismo ou do excessivo pendor nativista, como o demonstram, por exemplo, as suas análises sobre Gregório de Matos e José de Alencar.

Referências. Isso sem falar que o Machado de Assis, visto por ele, só é grande quando transformado num discípulo dos clássicos da língua - um Vieira, um Almeida Garrett, a quem Machado teria o mérito de nivelar-se pela "simplicidade do estilo" e pela "perspectiva inteiramente nova e original". É justamente essa a referência hermenêutica do panteão concebido por Oliveira Lima, pois é dele que irradiam as virtudes estético-literárias hauridas nos "espíritos superiores da imaginação e do pensamento", tomados como verdadeira tábua de princípios a fundamentar o universo de sua crítica. Além de Machado de Assis, lá estão - alinhados num mesmo patamar - Rui Barbosa, Olavo Bilac, Euclides da Cunha, Coelho Neto, Salvador de Mendonça - todos eles, para o autor do D. João VI no Brasil, espíritos em que de algum modo reverbera a vocação do primeiro Joaquim Nabuco, cujo "sentimento brasileiro" se destacava por haver sido polido na imaginação europeia.

Um bom modo de avaliar o seu legado é compreender como se amplia a distância entre as tarefas dos "espíritos construtores" - que Oliveira Lima foi buscar em Oliveira Martins para traduzir a grandeza moral dos nossos "homens representativos" (um João Ribeiro, um Euclides da Cunha, um José Veríssimo) - e a ação antipassadista dos modernistas fora da ordem, inspirado na qual um crítico como Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, romperia em 1926 com o tradicionalismo da falsa vanguarda. Se aos primeiros, valorizados na crítica de Oliveira Lima pela aliança entre "grandeza moral e a imaginação cintilante", cabia zelar pela "expansão dinâmica da inteligência brasileira e pela integridade clássica do vernáculo", aos segundos tocava desviar aquele dinamismo para a pesquisa da expressão original da língua rústica e das nossas falas populares em estado puro.

Sabemos hoje até onde a crítica de Sérgio nos levou a duvidar de que mesmo antes da nossa independência política - como queria Oliveira Lima - já dispúnhamos de uma expressão literária nacional, por mais civilizadora que aparentasse ser. Hoje é possível dizer que, à medida que veio ampliando, a partir de Raízes do Brasil, o alcance de suas análises, mais se aprofundaram as convicções com que, na evolução de seu método, Sérgio descartou do nosso horizonte as tarefas "do crítico restaurador" que projetava nos acontecimentos do passado uma espécie de sentimento cultural de nostalgia, interessado em rastrear no tempo a figuração dos mitos da nossa identidade literária. Daí o empenho, na crítica de Sérgio, não apenas pelas assimetrias culturais que se expandiam com o novo século, mas sobretudo pelo espírito de resistência e ruptura frente aos fatores responsáveis pelo atraso que nos submetiam desde a colônia.

ANTONIO ARNONI PRADO, PROFESSOR DE LITERATURA NA UNICAMP, É AUTOR, ENTRE OUTROS, DE ITINERÁRIO DE UMA FALSA VANGUARDA (EDITORA 34, 2010) E DOIS LETRADOS E O BRASIL NAÇÃO - A CRÍTICA DE OLIVEIRA LIMA E SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA, A SAIR NO SEGUNDO SEMESTRE

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