Diálogo sinfônico sob o signo do ritmo e da dança

Crítica: João Marcos Coelho

O Estado de S.Paulo

10 de março de 2013 | 02h10

Uma noite de música extrovertida, sob o signo do ritmo e da dança. Assim foi o segundo concerto da temporada 2013 da Osesp, na quinta, na Sala São Paulo, liderado por Celso Antunes. É divertido ler as quatro obras como um diálogo entre as músicas brasileira e a russa. Ambas bebem no ritmo e na dança, características que Mário de Andrade detecta em Shostakovich. Por isso, apaixona-se pelo russo. A Mário interessava enfatizar o viés nacionalista, àquela altura misturado com a paixão por Shostakovich, o compositor que a seu ver conseguiu realizar o sonho que o paulista acalentara desde a juventude: a fusão entre a música e o povo.

O entusiasmo já se estabeleceu na estreia mundial de Sacre du Sacre, de Marlos Nobre. Dezesseis minutos de paixão explícita do brasileiro pela Sagração da Primavera de Stravinski. Competente no trato com a escrita sinfônica, Nobre colou-se demais na peça de Stravinski, citando métricas e ritmos. Não será peça-chave de sua produção, cujo ponto mais alto está nos anos 70; mas é com certeza a mais encorpada dos últimos anos.

A brasilidade do Choro de Camargo Guarnieri equivale ao caráter russo do segundo concerto para piano de Shostakovich. Ambos fazem da dança e de fortes ritmos sincopados elementos centrais. A Osesp foi correta em Nobre tanto quanto em Guarnieri e Shostakovich, mas o grande destaque ficou com a pianista Cristina Ortiz. Ela seduziu todos os ouvidos com virtuosismo e sensibilidade rítmica extraordinária nos movimentos rápidos tanto no Cômodo e Alegre do Choro quanto nos dois Allegros de Shostakovich. E dosou com equilíbrio o lirismo dos movimentos lentos.

No pódio, Celso Antunes demonstrou segurança e domínio pleno de seu ofício. Apesar de sua origem ligada à regência coral, já é tempo de Antunes dedicar-se exclusivamente à regência sinfônica - e o maior exemplo foi o modo como construiu uma leitura envolvente da segunda sinfonia de Borodin.

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