DIÁLOGO RARO E DELICADO

Entre o Ocidente e o Oriente, um olhar sobre a arte japonesa dentro e fora do Japão

MARCO GIANNOTTI, ESPECIAL PARA O ESTADO / KYOTO, MARCO GIANNOTTI É PROFESSOR , DE PINTURA NA ESCOLA DE , COMUNICAÇÃO, ARTES DA , USP, PROFESSOR VISITANTE , DA KYOTO UNIVERSITY OF , FOREIGN STUDIES DURANTE O , PERÍODO LETIVO DE 2011-2012, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2011 | 03h07

É difícil de acreditar, mais a maioria dos japoneses não tem a menor ideia de que o Brasil tem cerca de um milhão e meio de imigrantes japoneses, dentre os quais cerca de 350 mil vivem em São Paulo. Desconhecem por completo a importância destes imigrantes na nossa cultura. É realmente triste notar como artistas tão conhecidos no Brasil não são reconhecidos devidamente no pais em que nasceram. Creio que não se trata de um fenômeno exclusivo daqui. Por acaso os italianos reconhecem a grandeza do nosso pintor maior, Volpi? Grande parte dos paulistanos já ouviu falar de Tomie Ohtake, seja a artista, seja o instituto. Mas esta célebre artista, nascida em Kyoto, infelizmente não tem seu devido reconhecimento em sua cidade natal.

As observações sagazes de Mario Pedrosa sobre o Japão têm me ajudado muito a compreender o que acontece por aqui. Ele permaneceu cerca de dez meses no Japão entre 1958 e 1959. Nos artigos que escreve para o Jornal do Brasil, o autor nos diz que "no Japão não há apenas, como no Ocidente, o problema da querela dos acadêmicos e modernos, a querela fundamental que divide o mundo das artes. Há aqui, além do mais, o problema da arte tradicional japonesa em face da arte ocidental, que conta com uma poderosa corrente, sem falar no modernismo vis a vis a corrente tradicional". Ao tecer várias considerações sobre a cultura japonesa, ele nos mostra como a ocidentalização do Japão foi traumática, advinda de fora para dentro. Ao contrário das vanguardas europeias, que criaram uma nova linguagem para se opor à tradição, neste caso, o modernismo foi importado por alguns artistas no intuito de defender a abertura do Japão para o Ocidente. Eles importaram ideias advindas da Europa e as transportaram para uma realidade totalmente distinta. Este processo, paradoxalmente, ocorre justamente no momento em que os artistas impressionistas europeus como Van Gogh e Manet ficam fascinados com as estampas populares japoneses de Hokusai e Hiroshige, entre muitos outros.

Algo semelhante acontece no Brasil, quando importamos libelos liberais durante um período onde persistia a escravidão, trata-se das famosas ideias fora do lugar tão bem analisadas por Roberto Schwarz. Tanto o Brasil como o Japão estavam distantes geograficamente da vanguarda europeia, de modo que a maioria dos artistas locais teve que se locomover para lá a fim de absorver as novidades. Chegam na Europa como estrangeiros, tentando apreender uma cultura que lhes é exógena.

Em uma cidade de imigrantes como São Paulo, muitos costumes e tradições parecem fora do lugar. A cultura dos imigrantes sempre vai se distanciando de suas origens. Muitas vezes, acaba preservando termos linguísticos que não são mais utilizados no país de origem: por exemplo, o japonês que se fala na Liberdade (quando não é coreano e chinês) se distancia muito da língua falada correntemente no Japão e o mesmo ocorre com o italiano falado pela comunidade imigrante italiana.

Em Elogio da Sombra, um belíssimo livro, um tanto nostálgico, Junichiro Tanizaki faz uma analise desse estranhamento, à medida que o ambiente e a cultura japonesa, que sempre conviveram com a sombra e a meia-luz, passam a ser iluminados com luz elétrica. O mesmo pode ser dito da pintura Fusuma tradicional (pintura feita em biombos), que sempre estabeleceu uma relação orgânica com a arquitetura japonesa, e, de repente, é transposta para a pintura de cavalete, posteriormente colocada em um espaço asséptico de paredes brancas. Todo o encanto e sutileza dessa pintura se desfaz quando a relação entre a pintura e o espaço circundante se extingue.

Os estrangeiros contribuíram muito para que o Japão, na ânsia de se modernizar, não destruísse sua cultura milenar. Por exemplo, Ernest Fenollosa (1853-1908), professor americano de filosofia e economia política da Universidade Imperial de Tóquio, lutou para que vários templos budistas não fossem destruídos durante a restauração do Imperador Meiji e com o surgimento de um novo fervor xintoísta e nacionalista. Os japoneses deveriam, afinal de contas, dar mais valor aos estrangeiros e seus imigrantes.

Se o contato com a cultura ocidental muitas vezes foi artificial, vale a pena indagar em que medida os artistas imigrantes japoneses, justamente por viverem cotidianamente com a cultura ocidental, não a acabam assimilando de maneira mais dialética, de modo mais vivenciado. Na pintura dos imigrantes desaparece as contradições entre a pintura tradicional japonesa (nihongo) e a pintura moderna ocidental (yoga), surgindo daí uma linguagem capaz de captar as transformações da arte moderna de maneira mais orgânica, como a abstração por exemplo, que se torna menos decorativa, externa e artificial. A meu ver, esta contradição entre abstração e figuração nunca existiu na arte japonesa tradicional, onde uma pincelada em um fusuma pode ser gesto e figura ao mesmo tempo. A abstração aparece portanto como uma categoria externa e artificial, uma ideia fora do lugar que não é capaz de descrever as sutilezas da pintura japonesa, tornando-se um conceito a priori cego e inútil.

É interessante notar que a maioria dos artistas imigrantes segue a linha de ocidentalização da pintura japonesa, utilizando a pintura a óleo e se contrapondo às técnicas e aos estilos tradicionais, como se o processo de ruptura se fizesse necessário pelo tempo e pelo espaço.

Em uma entrevista recente que Tomie Ohtake me concedeu, afirmou para minha surpresa que Mark Rothko foi uma de suas maiores influências. É evidente que para o artista contemporâneo, mais do que afinidades culturais herdadas da imigração, valem as afinidades eletivas. Mesmo tendo a cidadania italiana adquirida justamente pelos compromissos que os imigrantes italianos fizeram com seu governo antes de deixar seu país, compartilho com Tomie também a mesma afinidade por este pintor russo de origem judaica que imigrou para Nova York. Aliás, é interessante notar que o museu Kawamura em Chiba tem um dos conjuntos de obras mais significativas deste artista, uma parte da série Seagram, que também pode ser vista na Tate Modern, em Londres.

É inegável que a hegemonia da arte americana no pós guerra influenciou os rumos da pintura, seja no Japão, Coreia, Europa ou América do Sul. Neste sentido, creio não ser possível estabelecer uma relação direta entre a pintura feita pelos imigrantes japoneses com a produção feita no Japão atualmente, sem passar por uma avaliação singular de como cada artista administra suas afinidades eletivas. Por outro lado, à medida que o tráfego da informação visual tende a se globalizar cada vez mais com o desenvolvimento tecnológico, creio ser antes mais produtivo pensar em contrapontos entre a pintura que se faz no Brasil com aquela que se faz no Japão sem buscar necessariamente uma fundamentação sociológica que coloca a raiz do problema na imigração. Há afinidades entre artistas japoneses e artistas brasileiros que não são descendentes que se tecem em outras instâncias. Assim como a arte norte-americana foi paulatinamente sendo vista com outros olhos pela Inglaterra, espero que nosso crescimento econômico possa contribuir para que os artistas brasileiros e seus imigrantes passem a ter seu devido reconhecimento.

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