Diálogo possível e necessário entre dança e política

'Colônia Penal', da Cia. Borelli, expõe a relação entre violência e corpo ao evocar memórias da ditadura

Helena Katz, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2013 | 02h10

Quando o perto fica bem mais perto e, nesse movimento, expande todo o universo. Colônia Penal, a nova criação da Cia. Borelli, faz isso: tem o mérito poético de ser, ao mesmo tempo, local e geral, conversando com diversos contextos. Oferece o que promete - ser uma homenagem aos mortos e desaparecidos políticos da ditadura militar brasileira - e também consegue se abrir para fora dos 21 anos de sua duração. Esta Colônia Penal não tem lugar nem tempo: continua existindo, perto e longe de cada um de nós.

Quem conhece o percurso da companhia não vai estranhar que tenha agregado "Carne Agonizante" ao seu nome, uma vez que explicita, a cada nova produção, seu compromisso em atar dança e política. Desta vez, expõe a força da violência no corpo que ela não parece machucar, um corpo que não duvida da submissão que a própria violência formata.

Há uma sabedoria na construção dramatúrgica que elege a previsibilidade e a linearidade como pulsações. Assim que a situação se instala, o final está desenhado. E o que acontece entre um momento e o outro, ritmado por tais pulsos, é o apuramento de cada cena naquela que a sucede. À medida que vão acontecendo, vão nos empilhando, a nós, plateia, junto dos algozes. A certa altura, não se sabe mais em que momento escapou a possibilidade de resistir. Quando é possível se dar conta das camadas do que está sendo apresentado, já estamos reduzidos a uma passividade comprometida. E o ambiente é o de um amontoando inescalável de abominações repetidas em variações que arranham no mesmo lugar. Apenas mais adiante, vai aparecer a vertigem do que não tem saída.

Muito dessa clareza se deve ao modo como Branca Gonzaga, a artista convidada, atua. É seu corpo sem sotaque de dança que ganha a força anônima de um corpo qualquer, materializado em carne e peso. Precisamos encostar o ouvido para identificar que a secura das quedas de Branca passou a ser o ritmo que enclausura a relação torturador/torturado em seus horrores. O demônio que rege o que é possível prever enfileira uma sequência de barbáries, que cada um do elenco faz acontecer como se ecoasse o que Hannah Arendt chamou de "banalização do mal" quando cobriu o julgamento de Eichmann em Jerusalém, realizado em 1961, para a New Yorker, e depois transformado em livro.

À medida que se desce a escada que leva para a rua, a memória, densa e imperfeita, deixa cair de suas dobras adormecidas a esperança que lá estava enterrada. Vai desenhando um 'tomara que nasça' que abre um infinito. Um prelúdio para novos tempos artísticos da Cia. Borelli-Carne Agonizante porque a fúria caseira de Borelli ganhou o mundo nesta Colônia Penal, aliás, Colônia Farol.

GRUPO OFERECE O QUE PROMETE - UMA HOMENAGEM AOS MORTOS POLÍTICOS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.