Diálogo e influência de culturas

Colóquio vai analisar papel da ascendência brasileira na obra dos irmãos Mann

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2011 | 00h00

Prestes a morrer, em 1923, Julia Mann começou a falar num idioma que o filho caçula, sem entender, acreditava ser português. O relato de Viktor é lembrado pela estudiosa Marianne Krull no documentário Memórias do Paraíso (2005), de Marcos Strecker, e dá a dimensão da importância para Julia daqueles breves sete anos que viveu no Brasil. O filme será uma das atrações do 1º Colóquio Internacional Intermediações Culturais Brasil-Alemanha, que acontece entre os dias 26 e 28 na Casa de Cultura de Paraty. Organizado por Johannes Kretschmer e outros estudiosos, o evento pretende jogar luz sobre a revisão que se tem feito nas últimas décadas acerca da importância da ascendência brasileira para as vidas e obras dos irmãos Mann.

"A origem brasileira dos Mann é desconhecida até mesmo entre especialistas. Estudos recentes mostram que ela pode inclusive levar a novas interpretações sobre textos seminais dos dois", diz Kretschmer. Entre esses trabalhos estão Mutterland - Die Familie Mann und Brasilien, de Karl-Josef Kuschel, Frido Mann e Paulo Soethe, publicado em 2009 na Alemanha e inédito por aqui. O livro, segundo Soethe, busca mostrar que Julia teve mais influência sobre Thomas do que fazem crer os escritos dele. Ao contrário de Heinrich, que inclusive escreveu o romance Entre as Raças inspirado na história da mãe, Thomas pouco deixou transparecer proximidade com Julia. Chegou até a renegar a ascendência no começo da carreira, ao ser atacado em jornais alemães pelo "sangue judeu". Mas, em 1943, o autor de A Montanha Mágica declarou: "Sempre estive consciente do sangue latino-americano que pulsa em minhas veias e bem sinto o quanto lhe devo como artista."

Outro nome importante para as discussões do colóquio é Diuner Mello, presidente da Casa de Cultura e descendente da família Mello que, por várias décadas, no século passado, viveu no Engenho Boa Vista, a casa de Julia Mann. Diuner é um dos maiores conhecedores da história da casa e da riqueza patrimonial de Paraty.

Os debates não se restringem aos Mann. Metade deles será dedicada às relações entre a literatura brasileira e alemã, como a influência de Goethe sobre Gonçalves Dias e Machado de Assis. "A meta é sistematizar a pesquisa envolvendo relações entre os dois países", diz Kretschmer. Outras informações e inscrições pelo email jk@id.uff.br.

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