Diálogo do piano com o passado

Húngaro Deszö Ránki abre hoje temporada da Cultura Artística

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2010 | 00h00

Nada acontece por acaso. "Se isso é verdade na vida, com certeza também é na música", diz o pianista húngaro Deszö Ránki, que abre hoje a temporada da Sociedade de Cultura Artística. Verdade que sua vinda a São Paulo não estava programada - ele substitui o violinista Vadim Repim, que cancelou os concertos por problemas de saúde. Mas, ao menos no programa que ele interpreta, com obras de Liszt, Haydn e Schumann, ele garante: "Há um senso de continuidade, de causa e efeito, que coloca essas peças juntas e permite compreensão interessante do repertório do piano e sua evolução."

Ele começa o programa com a Sonata n.º 52 de Haydn e, na sequência, interpreta a Fantasia em Dó Maior, de Schumann, e a Sonata em Si Menor, de Liszt. É o programa de sua estreia, quase 30 anos atrás, em Londres, recital que marcou o início de uma importante carreira internacional.

Linha evolutiva. "É curioso você lembrar disso, pois não foi algo em que pensei na hora de montar o repertório. Acho que, no fim das contas, essas três peças ficam bem juntas porque cada compositor marcou, da sua maneira, a literatura para piano. E é possível perceber como cada um dialogou com o passado na hora de criar sua obra e apontar caminhos novos para o instrumento. Isso dá um senso histórico que permite compreender que, quando olhamos para trás, é possível enxergar uma linha evolutiva em que passado, presente e futuro estão constantemente se alimentando."

A Sonata de Haydn é uma das últimas obras do compositor - e, dependendo do catálogo de obras que se escolhe, é mesmo a última, já prenunciando um pouco do universo do romantismo. "As sonatas de Beethoven são obviamente fundamentais no entendimento desse tipo de peça. Mas uma sonata como esta do Haydn, que pertence ao fim da vida do compositor, já carrega muitas das ideias que Beethoven desenvolveria mais tarde. Adoro Mozart, que seria um elemento intermediário nesse processo, mas cada vez mais busco a obra de Haydn, que é bem menos tocada mundo afora", diz Ránki.

Para o pianista, a Fantasia mostra um Schumann atípico. "Em 2010, lembramos o bicentenário do compositor. Aniversários como esse se prestam a uma avalanche de lançamentos, concertos, recitais, que permitem a reavaliação da obra de um autor ou mesmo a redescoberta de peças menos conhecidas. A Fantasia não é exatamente pouco tocada, mas é um Schumann diferente e, por isso, precisa ser mais bem compreendida. Em suas peças, Schumann tornou-se célebre por abordar as formas curtas, em séries de pequenos movimentos. Aqui, no entanto, trabalha com formas mais amplas em três longos movimentos, inventivos em termos de melodia e harmonia."

Janelas. A escolha de uma peça de Liszt para encerrar o programa, diz Ránki, está relacionada ao trabalho que ele tem desenvolvido com a obra do compositor nos últimos anos. "Há peças que nunca são tocadas, às vezes até porque o próprio Liszt não as considerava representativas. Mas o tempo mostrou que, na verdade, elas são muito importantes. Liszt abriu uma série de janelas para a composição moderna. Se olhamos com cuidado o trabalho de autores como Debussy ou Bártok, percebemos como eles usaram como ponto de partida muitas das ideias musicais trabalhadas por ele. Dá para entender que o próprio Liszt tenha questionado as peças. Para a plateia da época elas devem ter soado estranhas e, mesmo para os dias de hoje, ainda são difíceis."

Além de Liszt, Ránki está envolvido, ao lado de sua mulher, a também pianista Edith Klukon, na gravação de obras do compositor húngaro Barnabás Dukay. "Nos últimos tempos, a música nova tem me interessado bastante. Confesso, sem muito orgulho, que nos primeiros tempos da minha carreira não era um repertório do qual gostava. Nos últimos anos, porém, comecei a estudar e a tocar Luciano Berio, Pierre Boulez, que trazem desafios interessantes para o piano. E conheci Dukay. É uma figura polêmica. Ele parte do conceito de que, depois de Mozart, tudo deu errado na história da música (risos). Portanto, sua criação volta à Bach e mesmo um pouco antes em busca de uma linguagem que é recriada por um filtro extremamente moderno, contemporâneo."

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