Diálogo de Estilos

Pop e erudito convivem na trajetória de Alex Ross, que define papel do crítico

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2011 | 00h00

A trajetória pessoal de Alex Ross ajuda a explicar a cara que tem seu trabalho como crítico. Em Harvard, estudou com o compositor Peter Lieberson - e era DJ das áreas de clássica e rock underground da rádio universitária. Ao se formar, escreveu sua tese sobre James Joyce. E, dois anos depois, passou a integrar o time de críticos do New York Times, onde ficou de 1992 a 1996.

Veja também:

link Alex Ross, crítico Best-Seller

Uma das lembranças musicais mais marcantes da adolescência, conta, foi o contato com a música de Mahler. "Eu me apaixonei de maneira muito forte pela obra dele e até hoje é algo muito importante para mim. Ele está entre os compositores mais vivos emocionalmente: você o vê transitando do triunfo à tragédia, da paixão ao sarcasmo mais amargo. No entanto, toda essa emoção está envolta em uma técnica brilhante. É como ler um grande romance", diz. Com as homenagens dos últimos anos, por conta dos 150 anos de nascimento - e 100 de morte - do compositor, ele acha que seria bom, ao menos por um tempo, ouvir menos sua música. "Há uma profusão de interpretações boas tecnicamente, mas totalmente descompromissadas. Mahler não pode nunca ser tocado assim! Então talvez seja bom parar um pouco para respirar e, mais tarde, voltar a ele com frescor."

Função. Ross deixou o New York Times para entrar na equipe da New Yorker, onde é crítico titular desde então. A experiência, diz, permitiu que ele chegasse a algumas conclusões sobre o trabalho do crítico. "Definir para que serve um crítico é uma questão de filosofia pessoal. Para mim, a crítica é uma mistura de avaliação e explicação. Em parte do tempo, estou ouvindo uma apresentação e passando adiante meus julgamentos sobre o que escuto - essa é a definição clássica. Mas também estou tratando de uma cena musical mais ampla e tentando sugerir os significados da música. Nesse sentido, o papel do crítico mudou muito nos últimos 50 ou 60 anos. Nos Estados Unidos, a cobertura dos clássicos praticamente desapareceu das revistas de interesse geral. Sou um dos poucos escrevendo regularmente em uma revista de âmbito nacional. E acredito que críticos nessa posição têm uma responsabilidade extra: não basta apenas oferecer julgamentos objetivos sobre a cena musical mas também servir como a face da própria música clássica, explicá-la a um público mais amplo. Alguns críticos, estou certo, discordam radicalmente dessa visão, eles não querem ser advogados de nada. Mas eu gosto desse papel, ele me dá um certo senso de utilidade social."

Nesse sentido, Ross considera importante que a cobertura não se limite aos grandes eventos. "Ficar limitado às celebridades da música clássica, aos Yo-Yo Mas, às Renée Flemings e Lang-Langs não me parece correto. Há tantos artistas brilhantes e tão menos conhecidos! Um dos meus grandes prazeres é viajar pela América e procurar iniciativas ricas. Foi assim, por exemplo, que conheci a Sinfônica do Alabama, que está tocando muito bem e apresentando repertórios interessantes, mesmo que ninguém nos grandes centros do país e lá fora saibam. Sou muito grato pelo fato da New Yorker me deixar ir a essas expedições."

Em uma dessas expedições, Ross pode acompanhar de perto o trabalho desenvolvido pela maestrina Marin Alsop à frente da Sinfônica de Baltimore. O que ele acha da escolha dela para o cargo de regente titular da Sinfônica do Estado de São Paulo? "Eu tive a oportunidade de ouvir Marin Alsop não só em Baltimore como à frente de muitas outras orquestras, quando escrevi seu perfil para a New Yorker, anos atrás. Eu admiro muito seu trabalho: é uma regente tecnicamente sólida, bastante imaginativa na hora de montar seus programas, uma musicista que acredita profundamente na tarefa de dar espaço a novos compositores. Mais do que isso, ela tem visões interessantes sobre como a música deve se relacionar com a sociedade - e não apenas a elite. Suspeito que algo interessante possa acontecer em São Paulo."

ALEX ROSS

Sala São Paulo. Praça Julio Prestes, 16. Amanhã, às 19 horas. Grátis - lugares limitados.

TRECHOS

BRAHMS

"O surgimento daquela barba professoral, dois anos depois da Primeira Sinfonia, parecia confirmar o papel de curador. Contudo, é fácil exagerar a diferença entre o jovem e o velho Brahms. Na verdade, sua música ficou mais sonhadora, mais juvenil à medida que os anos passaram. Suas primeiras obras são as mais acadêmicas, as últimas, as mais fantásticas.

Uma bela epígrafe para sua carreira pode ser encontrada num aforismo de Novalis que Brahms anotou em seus cadernos: "Nossa vida não é um sonho, mas deveria ser e talvez venha a ser"." (Trecho do artigo Abençoados Sejam os Tristes: O Brahms Tardio)

BJÖRK

"Ainda insatisfeita com sua criação, ela sentou-se ao teclado e criou novas linhas vocais para acrescentar ao vagalhão de sons do começo da canção. Björk passou ao menos a metade do tempo em que estive com ela curvada sobre um teclado ou um computador, criando sua síntese peça por peça. É muito raro que fique sentada sem se mexer, e cruza e descruza constantemente as pernas, agacha-se na cadeira em várias posições, ou se levanta para girar o corpo de um jeito ou de outro. Mas seu olhar permanece fixo sobre o que quer que prenda sua atenção; seu corpo parece se distrair, mas não sua mente." (Trecho de Paisagens Emocionais)

MARIAN ANDERSON

"Quando a carreira de Anderson entrou em sua fase final, nos anos 1950 e 60, salas segregadas não estavam mais em sua agenda. Ela rompeu uma barreira importante em 1955, quando se tornou a primeira solista negra a se apresentar na Metropolitan Opera, no papel de Ulrica, em Un Ballo in Maschera. Já então sua voz não estava mais no apogeu. Ela continuou a cantar por mais dez anos, não porque não conseguisse abandonar os refletores, mas porque as plateias não a deixavam ir embora. Se, como disse Toscanini, uma voz assim só aparece uma vez a cada cem anos, não há sucessora à vista." (Trecho de A Voz do Século: Marian Anderson)

PROGRAMAÇÃO

Teatro e palestras

O encontro com Alex Ross marca o início das comemorações dos 25 anos da Companhia das Letras - até o fim do ano, haverá outras três conferências. No dia 26 de setembro, às 20 horas, será a vez do escritor argentino Ricardo Piglia falar sobre um tema no qual é especialista, Romance e Tradução.

Em outubro, também no dia 26, o italiano António Damásio faz uma palestra cujo tema é E o Cérebro Criou o Homem.

A série termina dia 9 de novembro, com Amós Oz falando sobre Literatura e Guerra: Perspectivas Israelenses.

Já a Cia. Livre de Teatro, sob o comando de Cibele Forjaz, vai apresentar leituras encenadas de textos de Lima Barreto, dias 15 de agosto, 19 de setembro e 17 de outubro, sempre no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura.

E o Auditório do Masp vai receber professores para falar com Alberto da Costa e Silva, Drauzio Varella e Ana Maria Machado.

Tudo o que sabemos sobre:
Alex RossCaderno 2O Resto É Ruído

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.