Daniel Teixeira/ Estadão
Daniel Teixeira/ Estadão

Diálogo com os anos 60

Marin Alsop vê relações entre peças que rege hoje e amanhã e momento do País

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2013 | 02h14

O concerto que a Sinfônica do Estado apresenta hoje e amanhã na Sala São Paulo foi programado há mais de um ano; e o repertório - peças de Camargo Guarnieri, Leonard Bernstein e Luciano Berio - foi pensado à luz de uma apresentação que a Osesp fará em outubro em um festival londrino. Ainda assim, as recentes manifestações pelo País deram a ele uma atualidade contundente. É o que sugere a maestrina norte-americana Marin Alsop, que rege as apresentações. São todas obras estreadas no fim dos anos 60, ela lembra, e que carregam dentro de si algumas perguntas: qual o futuro possível, para onde vamos? "É o que percebo que o povo brasileiro está perguntando hoje nas ruas."

A orquestra começa o concerto com a Sinfonia n.º 4 - Brasília, de Guarnieri; em seguida, toca as Danças Sinfônicas de West Side Story, de Bernstein; e encerra a noite com a Sinfonia de Berio, da qual os Swingle Singers participam como solistas. "Bernstein é o eixo do programa. Guarnieri dedicou sua sinfonia a ele e Berio escreveu sua peça para que ele a estreasse em Nova York. Nesse sentido, eles lidam com a questão que ocupava Bernstein no fim dos anos 60: para onde vamos em termos da arte como representativa da sociedade civilizada?", indaga Alsop, que faz então uma relação com o momento vivido pelo País. "O que está de fato acontecendo? Vivemos o caos, tudo isso é fruto de algum acaso? Mais importante: a sociedade está se rompendo? Há um futuro? Há alguma regra, alguma justiça? Podemos confiar em alguma instituição nesse processo?", pergunta-se.

Alsop foi aluna de Bernstein e relembra que para ele, nos anos 60, a tonalidade significava a sociedade civilizada, a esperança, um senso de humanidade. "Ele foi muito criticado por isso, em um momento em que a música atonal era dominante na vanguarda. Mas ele não se furta de perguntar se o mundo podia ser pensado à luz do embate entre a tonalidade e a atonalidade. Naquele momento, ninguém sabia a resposta, mas ele sabia, à sua maneira, ele a intuía, acreditava", diz. "E, além disso, este é um programa fascinante porque tem uma peça que poucos conhecem, que é o Guarnieri; outra bastante conhecida, que é West Side Story; e outra que talvez poucos conheçam de fato, o Berio. É um programa ao qual eu assistiria", brinca.

Peças. Guarnieri escreveu sua Sinfonia n.º 4 no final dos anos 1950. A princípio, pensou em inscrever a peça no Concurso Sinfonia Brasília, que escolheria uma obra para comemorar a inauguração da nova capital do País. Mas ele é chamado para participar do júri e, assim, guarda a sinfonia, que, anos mais tarde, levaria na bagagem em uma viagem aos Estados Unidos.

Na linhagem da música brasileira, Guarnieri costuma ser tratado como uma continuação do caminho nacionalista iniciado - ou ao menos desenvolvido - por Heitor Villa-Lobos. Apenas nos últimos anos sua obra tem passado por uma reavaliação à luz de sua qualidade intrínseca e não de filiações com correntes estéticas. Para Alsop, esta é uma percepção importante. "É muito difícil para alguém se livrar da sombra de um ícone. Eu fico pensando nos jovens maestros venezuelanos, que terão que lidar com a importância de Gustavo Dudamel. Foi o mesmo com Brahms com relação a Beethoven. Você acaba sendo medido pelo trabalho de outras pessoa. Mas, como alguém que está conhecendo agora sua obra, posso dizer que Guarnieri soa para mim mais contemporâneo, mais abstrato do que Villa-Lobos. Ele me parece a grande surpresa do programa, é um autor muito interessante que, aqui, lida com a questão rítmica, com um pulso humano que celebra a vida."

Já a Sinfonia de Berio estreou em 1968, para marcar os 125 anos da Filarmônica de Nova York. Como definir a obra para alguém que nunca a ouviu? "É um pouco como ir a um museu pela primeira vez e achar que vai ver Rembrandt, mas acaba encontrando Picasso", diz Alsop. "Está tudo lá, mas no lugar errado, o nariz no pescoço, etc. Berio faz referências a Mahler, Sagração da Primavera, Cavaleiro da Rosa, Berg, Schoenberg, Brahms, Bach, Debussy. É como uma enorme colagem. Meu conselho é que você não tente entender a peça, apenas sinta o que ela desperta em você. Depois de meses estudando a obra, é o que eu digo: não há nada de errado em não entendê-la. Apenas viva a experiência."

OSESP

Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, 16, Campos Elísios, 3223-3966.

5ª e 6ª, 21 h; sáb., 16h30.

R$ 28/ R$ 160.

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