Diálogo através do tempo

Ensaio mostra como teorias de Freud foram recriadas no debate com outros autores

Giovanna Bartucci, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2010 | 00h00

Uma nota de rodapé da obra de Freud seria indicação de fontes, correção ou acréscimo ao seu trabalho? Determinaria passado ou futuro? Em face destas questões, o interesse do psicanalista, membro fundador do Centre for Freudian Analysis and Research, em Londres, Darian Leader, repousa sobre o aspecto da história da psicanálise que se detém no contexto dos debates e seleção de questões em pauta. Como explicita o autor de Pé de Página para Freud, o que retém sua atenção deixa de ser o "desenvolvimento interno" da obra, ou o papel que o pai da psicanálise desempenhou na cultura, e se volta para situar questões de pesquisa que o preocupavam por meio da observação das respostas concebidas e modificadas pela discussão com colegas. Mas o fato é que ao se perguntar se "a teoria psicanalítica não é, em si mesma, uma sucessão de notas de rodapé", Leader produz novas perguntas: "Os parâmetros conceituais dentro dos quais Freud trabalhou seriam diferentes hoje? E como isso afeta o modo pelo qual avaliamos suas teorias? O trabalho de Melanie Klein ou Jacques Lacan são acréscimo, correção ou confirmação de suas teorias?"

No que diz respeito à relação (teórica) entre a psicanalista britânica e o psicanalista francês, originada na década de 1930, o autor faz um trabalho de pesquisa notável ao resgatar, por meio do exame dos conceitos de "posição depressiva" e "mundo interno", seus pontos de interseção, por vezes, lendo Klein à luz de Lacan e Lacan à luz de Klein. Os temas da sexuação, ou seja, a constituição de uma posição sexual desejante, masculina ou feminina, e da sexualidade feminina são tratados de forma minuciosa de maneira que os três psicanalistas dialoguem, mais uma vez.

Contudo, se a referência ao pé de página nos remete à explicações ou aditamentos, a ideia de geração torna inequívoca a presença de fases que assinalariam mudança no comportamento humano, ou em uma técnica decisiva. Essa condição implica o sujeito criar um dispositivo para si que o permita incorporar seus antepassados, estabelecendo um diálogo criador com, no caso, a sua própria obra. Um herdeiro é, afinal, alguém que reinscreve a própria herança de forma inovadora ? característica que Leader não logrou destacar nas produções kleiniana ou lacaniana. No que diz respeito ao autor, os ensaios A Formação Científica de Freud e Freud, Música e Elaboração, reflexão sobre como conceitos musicais podem funcionar na psicanálise e nos ajudar a formular problemas clínicos, constituem, com certeza, o seu legado.

GIOVANNA BARTUCCI É PSICANALISTA, AUTORA DE FRAGILIDADE ABSOLUTA. ENSAIOS SOBRE PSICANÁLISE E CONTEMPORANEIDADE (PLANETA) E BORGES: A REALIDADE DA CONSTRUÇÃO ? LITERATURA E PSICANÁLISE (IMAGO)

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