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Ignácio de Loyola Brandão
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Dia feliz em plena tormenta

‘A fantasia nos ajuda a suportar a vida’, mantra que aprendi no primário e carreguei pela vida

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2021 | 03h00

Caro professor Cláudio César de Paiva. Na tarde de 28 de janeiro, na Reitoria da Unesp, em São Paulo, em sessão restrita por causa da pandemia, tive um momento de felicidade, quando mil imagens se misturaram naquele espaço. No momento em que Pasqual Barretti, reitor da Unesp, Maysa Furlan, vice-reitora, Erivaldo Antonio da Silva, secretário, e você, Cláudio, diretor da Faculdade de Ciências e Letras, estavam me conferindo o título de Doutor Honoris Causa – que sei, foi uma batalha sua –, olhei para a rua e dei com o bonde Avenida 3 vindo, e eu, magro, magro, dentro. Era 1957 e eu desceria no Mappin e seguiria a pé até a Última Hora, no Anhangabaú, meu primeiro emprego em São Paulo. Como fui feliz trabalhando com Samuel Wainer. Estava onde gostava, era sonho. Daquele bonde, cheguei a essa tarde máxima.

Naquela hora, revivi instantes marcantes, como o dia em que nasci. A parteira Rosa Stringhetti me contou um dia que demorei a respirar, ela ia desistir quando dei um grito. Aprendi a gritar para viver. Feliz foi o dia em que comprei o material para minha primeira aula, em 1942. O melhor da primeira comunhão foi o chocolate com bolachas oferecido pelos Masieros. Excitadíssimo, fui ao cine Paratodos, aos 8 anos, para assistir A Canção de Bernadette. Havia um mundo real e outro na tela. O deslumbramento de ser aluno do Progresso, o melhor da cidade, graças a uma bolsa dada por Emilia Albertini. Errei todos os passos ao dançar com minha prima Cecilia na formatura do ginásio, em 1948. Na manhã de 12 agosto de 1952, a Folha Ferroviária publicou minha crítica ao filme de Rodolfo Valentino, o começo de tudo. O primeiro seio que vi no cinema, o de Françoise Arnoul. A alegria no derradeiro exame de matemática em 1956, ao ver Ulisses Ribeiro dar – a mim campeão de zeros – um espantoso 10, aconselhando: “Vai, Ignácio, que o teu mundo é o da imaginação”. Antes, no curso primário, as professoras Lourdes Prado e Ruth Segnini repetiam: “A fantasia nos ajuda a suportar a vida”. Mantra que carreguei pela vida. Assim caminhei até esta tarde de 28 de janeiro. Momento excepcional, ao qual cheguei sem faculdades, doutorados. Não fiz, não tinha tempo, ou trabalhava ou estudava. Escrevi livros.

Escolher? A tarde de março de 1957, quando Celso Jardim, chefe de reportagem, me devolveu a sexta versão de minha primeira reportagem, dizendo: “Volte amanhã, meu jovem, você tem jeito”. Fazer e refazer, aprendi ali. Um mês antes, em Araraquara, tarde da noite, em um banco de jardim, fui dominado por uma angústia tenebrosa. O que fazer na vida? Tudo o que sonhava era fugir da mesmice, do um dia ser igual ao outro. Desde Alice no País das Maravilhas, sabia que meu destino era me enfiar na toca de um coelho e viver no delírio. Minha mente curiosa e a realidade que o jornalismo me mostrava a cada momento, mais a literatura, me conduziram pela vida. A esta vida e a este Brasil que venho desvendando no que escrevo.

Milhares de imagens. Qual? A manhã em que entrevistei Juscelino, estadista sorridente, afável? Ou quando me vi diante de Giulietta Masina, no Hotel Jaraguá? Alda Lupo e seu rosto de camafeu subindo as escadas do Araraquarense? A manhã de um sábado no Automóvel Clube de São Paulo, quando Pierre Salinger, porta-voz de John Kennedy, me revelou que o presidente americano não viria ao Brasil, o que publiquei em primeira mão. A tragédia de Dallas viria logo depois. O passeio a Giverny, o jardim de Monet. O omelete de salmão em um café de Nova York com Rubem Fonseca, em um primeiro de ano gelado. O dia em que Caio Graco aceitou publicar meu primeiro livro, o dia em que Zero saiu na Itália, as amizades com Odete Lara, Fernando de Barros, Maria Della Costa, Tônia Carrero, Fernanda Montenegro, Ruth de Souza, Anselmo Duarte, Marlene França, Apolo Silveira, no início de meus anos em São Paulo. A tarde chuvosa no Rio de Janeiro, quando Augusto Boal me levou para conhecer Nara Leão. 

Em Hollywood, 1967, entrava no restaurante do estúdio da Fox, coloquei a mão no trinco, ouvi: wait, segurei a porta e Gene Kelly passou, sorriu, me deu um tapa no ombro, agradeceu, “the last gentleman in the world”. Meu ídolo, sempre quis dançar como ele. Ruth Cardoso me disse um dia: “Fred Astaire era mais elegante”. Dançasse, teria conquistado Gilda Parisi, Leonor Monteiro, Vanda Cambiaghi, Suely Marchesi, Norma Crisci, Nilcea Tonello? E a sucessão de entrevistados? Catherine Deneuve, Alain Delon, Sammy Davis Jr., Kim Novak, Jane Russel, Marlene Dietrich, Lea Massari, o presidente Frondizi, da Argentina, o general Lott. Eu, na Praça de São Pedro, em 1963, noite após noite, esperando que o papa João XXIII morresse. 

Nada porém que se compare ao domingo de carnaval em Araraquara, quando vi Marcia no Tênis em 1986 e minha vida mudou. Ela tem sido a luz. Os cinco Jabutis que recebi, sendo um dourado. O estar em Araraquara na palestra de Sartre, na Faculdade de Filosofa, momento histórico. Felicidade foi ter passado em 1963 três minutos com Fellini, no Café Rugantino, e ter feito uma pergunta. Conheci escritores da grandeza de Juan Rulfo, García Márquez, Mario Benedetti, Clarice Lispector, João Cabral de Mello Neto, tive Antonio Tabucchi como meu tradutor, fui amigo de Jorge Amado e Zélia Gattai, Ariano Suassuna, Ricardo Ramos, Roberto Freire, Carolina Maria de Jesus, Antonio Callado, João Ubaldo Ribeiro, Moacir Scliar, Mário Quintana. O ingresso na Academia Paulista de Letras, depois na Brasileira, nesta por unanimidade. E o de ter sido mediador por décadas ao lado de Josué Guimarães, Alcione Araújo e Luciana Savaget das Jornadas de Literatura de Passo Fundo, de Tania Rösing, com seis mil estudantes e professores na nossa frente. Que Brasil diferente deste que vem sendo corroído. 

Doutor Honoris Causa para o menino que vendeu palavras, para o escritor que, na Unesp, terminou o romance de amor O Beijo Não Vem da Boca e estruturou O Verde Violentou o Muro, relato do cotidiano berlinense no tempo do Muro, Die Mauer. Queria rever a professora de desenho do ginásio que, ao verificar meu insucesso ao fazer sombras, garantiu: “Você nunca vai ser nada”. Acredito que ela ficaria feliz ao ver que a desmenti. Adorei o que vivi, o que vivo. 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'

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