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Lúcia Guimarães
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Dia de Mãe

Cá estava apagando mais um punhado de e-mails com ofertas do Dia das Mães, cujo comercialismo sua criadora morreu combatendo. Anna Jarvis, de West Virginia, insistia que chamassem de Dia da Mãe, no singular, um domingo introspectivo para cada um passar com a própria, em sinal de gratidão. Mas Jarvis perdeu o controle de sua criação, especialmente depois que o presidente Woodrow Wilson proclamou a comemoração oficial no segundo domingo de maio. O comércio embarcou na propaganda de flores e doces como presentes, a empresa Hallmark foi atrás, na década de 1920 e, até o próximo domingo, os americanos devem enviar 120 milhões de cartões para comemorar o dia.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2015 | 02h04

Notei que o Dia da Mãe brasileiro chegou no Primeiro de Maio. Ou foram os Primeiros de Maio, com uma presidente escondida e um ex-presidente em público? Mas eu divago.

Não sei qual era a intenção, mas o ex-presidente Lula jogou a introspecção ao vento e conclamou os brasileiros a ter "paciência com a Dilma como temos que ter com a mãe da gente". No dia em que a sucessora se refugiava de protestos contra seu papel de madrasta de literatura infantil, o ex-presidente - pai dadivoso? - conclamava sua prole política a demonstrar tolerância. Que forma estranha de resumir a ideia de figura materna. Será que as mães dos sindicalistas da CUT lembraram ao ex-presidente que a paciência, em doses infinitas, é um requisito da maternidade, não de eleitores ou filhos de fato?

Ou será que a paciência é aquela que o filho deve reservar à mãe idosa, cuja mente já não é afiada como antes? Como quando não havia lorota que passasse pelo detector materno, do tipo, não acredite em quem diz que eu falo mal de você pelas suas costas o tempo todo, inclusive com a oposição que lhe azucrina?

Não posso saber como o ex-presidente chegou à tal comparação. Mas ele achou por bem dizer ao exército de novos desempregados, a trabalhadores empobrecidos com a disparada de preços resultante da política econômica de sua "mãe" que, se tiverem paciência com ela, a realidade voltará a ser rósea para papai voltar em 2018. O paternalismo do comentário é extraordinário.

Mas ele aponta também para um subtexto cultural crescente em sociedades que envelhecem, como a americana ou a brasileira. É um tipo de sexismo que leva Lula a tratar a presidente como "Dilminha". A própria escolha de uma sucessora que nunca tinha concorrido a cargo eletivo, hoje vai ficando claro, foi um gesto de condescendência com seus "filhos", que acharam natural votar numa desconhecida para guardar seu lugar no Planalto.

Ao reduzir a figura da mãe a alguém que requer paciência, Lula não está sendo exatamente original. Mesmo um sujeito reflexivo como Barack Obama só admitiu plenamente o papel e o valor de sua mãe na meia idade. Ele escreveu Sonhos de Meu Pai com pouco mais de 30 anos mas, embora demonstre no livro uma grande capacidade de autoexame, há um elefante na sala daquelas memórias. Só nos últimos anos, o presidente americano redistribuiu a importância de Stanley Ann Dunham na sua vida. E o pai queniano que o abandonou também não era páreo intelectual para a ex-mulher, autora de uma elogiada tese de doutorado publicada postumamente.

Quando li as palavras de Lula sobre a Dilminha mamãe, reconheci algo que me chama atenção por viver longe. É uma cultura latina que começa a suprimir a mulher depois da meia idade. Outro dia, um operário incompetente reformando um banheiro no andar de cima provocou um sério vazamento no meu quarto. Por sorte, ouvi o ruído da água caindo e corri escada acima para alertar sobre o estrago. A primeira reação do sujeito de sotaque centro-americano foi um condescendente "Qué pasa, mamá?" Assim como não sou mãe daquele energúmeno, não sou filha de presidente alguma e, tem mais: aqui em casa, qualquer esboço de condescendência filial é cortado na raiz com um bom cascudo verbal.

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