Dia das Mães

Os quatro filhos se reuniram para decidir o que fazer. Já tinha havido uma reunião, meses antes, depois de a mãe deles anunciar que estava vivendo com outra mulher, chamada Noelma, com quem iria se casar assim que fosse legal. Naquela ocasião só o filho mais velho, Gustavo, se rebelara. Sua mãe vivendo com outra mulher. Sua mãe dormindo com outra mulher! Era inconcebível. Ele não aceitava. Os outros filhos - Gabriela, Guilherme e Guiomar - tinham se surpreendido com a notícia (logo a dona Odalinda, que não deixava trazerem namorado pra casa!) mas aceitado.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2011 | 00h00

Gustavo resistira:

- Não quero nem conhecer essa mulher.

Mas acabara conhecendo a Noelma, na festa de ano-novo da família. A contragosto. E sem levar os filhos, para não verem a vovó trocando beijos com a Noelma.

***

A reunião agora era por outra razão. Aproximava-se o Dia das Mães, e era costume "as crianças" darem presentes para dona Odalinda no Dia das Mães. A questão era: este ano, deveriam dar presentes para a Noelma também?

- Para todos os efeitos, ela é nossa madrasta - disse a Gabriela.

- Nem pensar - disse Gustavo.

A Guiomar concordou com Gustavo. Tecnicamente, Noelma não era madrasta de ninguém. Pelo menos até que se casasse com a mãe deles.

Gabriela achou que deveriam dar uma presente para Noelma, nem que fosse só um marcador de livro. Para ela não se sentir enjeitada.

O voto decisivo seria do Guilherme.

- Um presente de Dia das Mães para a amante da minha mãe? Olha, eu me considero um cara moderno, esclarecido, tolerante e tudo o mais. Mas não tanto. Ainda não estou preparado para isso.

Ficou decidido. Nenhum presente para a Noelma.

***

Outro costume da família era o almoço do Dia das Mães, quando dona Odalinda cozinhava, e depois da sobremesa simulava surpresa ao receber os presentes dos filhos. "Ai meu Deus, não precisava!" Todos os anos a mesma coisa. Mas neste ano havia uma novidade na mesa do almoço do Dia das Mães. A Noelma - e o filho da Noelma. Sim, Noelma tinha um filho. Chamado Hugo. Um moço dos seus 35 anos, sério, pálido, que ficara todo o almoço sem dizer uma palavra. E que no fim se levantou do seu lugar e foi buscar dois pacotes que deixara perto da porta de entrada. Um presente para a sua mãe e outro para Odalinda. Ambos caríssimos.

***

- Isso deve ter custado uma fortuna! - exclamou a Noelma.

- Você merece, mamãe - disse Hugo.

- Hugo! - gritou Odalinda. - Que presentão. E você não é nem meu filho!

- É como se fosse, dona Odalinda.

Foi aí que o Gustavo declarou:

- Os presentes ainda não acabaram!

E sacou um talão de cheque do bolso.

***

Mais tarde os irmãos, reunidos, concordaram: Gustavo fizera a coisa certa ao preencher o cheque com aquela grande quantia. Era preciso dar uma resposta a altura ao Hugo (que tinha cara de embalsamador, segundo o Guilherme). Não podiam ficar para trás. Só achavam que Gustavo exagerara um pouco quando entregara o cheque a Odalinda e dissera:

- Para as duas pombinhas que estão começando uma vida nova.

"Duas pombinhas" fora um pouco demais.

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