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Dia bom de rolê

Terça-feira é ruim de rolê, vou fazer o quê?

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2015 | 02h05

Não sou eu que digo, é o Mano Brown no rap Da Ponte para Cá. Será mesmo, mano?

Passo em revista as minhas terças-feiras, e, numa primeira olhada, quase subscrevo o verso que os Racionais Mc's puseram na praça auditiva com o álbum Nada Como Um Dia Após o Outro Dia, em 2002. Não localizo, nesta já longa vida, alguma terça memorável.

Meus pais tiveram 11 filhos - e só um de nós deu as caras numa terça-feira. Cinco chegaram no sábado, que para Vinicius de Moraes era o Dia da Criação. Eu, inclusive, num sábado de carnaval. Onze filhos, todos de parto natural, ainda que bisnetos de Francisco Furquim Werneck, o introdutor da cesariana no Brasil.

Mas o que é isto? Melhor retomar o fio, antes que você me acuse de emplacar a terça como o Dia da Conversa Mole. Recorro aqui ao Calendário Permanente 1901-2092, e vou direto ao Otto Lara Resende, que, ao estrear crônica diária na Folha de S.Paulo, em 1.º de maio de 1991, quando estreava também seus 69 anos de idade, botou como título "Bom dia para nascer". Bom não porque fosse Dia do Trabalho, esclareceu, mas por ser feriado.

O Otto nasceu num domingo, e aquela estreia deu-se numa quarta. Seria então a terça um mau dia para nascer? Aqui estão, para desmenti-lo, a Carmen Miranda, o Bob Marley e o Caio Fernando Abreu. O Candido Portinari e o Elvis Presley chegaram e partiram numa terça-feira. Se é que o Elvis partiu, dirão milhares.

Em outro campo, vejo no Calendário Permanente que a Sociedade Esportiva Palmeiras nasceu numa terça-feira, como Palestra Itália, denominação que teve de trocar (numa segunda) quando o Brasil declarou guerra a Mussolini. Já o São Paulo é de segunda, quer dizer, foi fundado numa segunda-feira; o Corinthians é de quinta, e o Santos, de domingo, tanto quanto, lá em Minas, o meu Cruzeiro.

Numa terça-feira, Getúlio Vargas saiu da vida para entrar na História; noutra, militares e civis desfecharam o golpe de 64. Foi também nesse dia da semana que o Machado de Assis, o Villa-Lobos, o Adoniran Barbosa, a Elis Regina e a Clara Nunes desobjetivaram, como dizia o Vinicius.

Era terça-feira quando o exército do presidente Epitácio Pessoa tiroteou os 18 do Forte na praia de Copacabana, e quando Osama Bin Laden mandou embicar aqueles aviões contra as torres gêmeas - à semelhança do que fez agora, nos Alpes franceses, o copiloto Andreas Lubitz com o jato alemão de cujo comando se apossou quando o chefe saiu para fazer o mais desastroso xixi de que se tem notícia.

A 1.ª Guerra Mundial começou na terça - mas foi também nesse dia que, na 2.ª, as forças aliadas desembarcaram no litoral da Normandia, e, menos de um ano depois, liquidaram o conflito.

Era terça-feira quando, teatral, Fernando Collor de Mello deu aquela olhada no relógio de pulso e assinou sua renúncia, e quando o Congresso Nacional fez de Tancredo Neves o presidente que ele não chegaria a ser.

Curta demais para as 24 horas que o calendário lhe destinou, a terça-feira de carnaval, não por acaso Terça-feira Gorda, dá por vezes a impressão de haver abocanhado a maior parte da alegria que caberia às demais - pra tudo se acabar na quarta-feira.

Se Arthur Rimbaud, num soneto, viu cor em cada uma das vogais - A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde -, outro poeta bem que poderia cromatizar os dias da semana. Ou alguém já o fez e não estou sabendo? Preciso, urgentemente, conhecer a cor da minha terça-feira, e as fontes do candomblé e da cromoterapia que andei consultando só me confundem, pois ali me deparei com todo um arco-íris, no qual, discretamente, o vermelho sobressai. Terá o rubro a ver com Martes, o deus da guerra, que rege este dia ao ponto de imprimir sua marca nos nomes que ele tem em francês (mardi), em espanhol (martes) e em italiano (martedì)?

Mas pouco importa a cor, talvez, se vigorar o que propôs o poeta Thiago de Melo: "Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo". É o que ardentemente espera um cronista que, egresso do domingo, faz agora pouso na terça-feira. Não custa lembrar: foi nesse dia da semana que, mais de um século atrás, Santos Dumont fez voar no campo de Bagatelle, em Paris, o seu 14-Bis, mantendo-o a 3 metros do solo ao longo de intermináveis 60.

Para o cronista, já estaria de bom tamanho.

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