Criolina/Divulgação
Criolina/Divulgação

Di Melo, o 'imorrível', apresenta-se na Virada Cultural

Músico é ilustre desconhecido do grande público a fazer parte da programação

MARCELO GALLI, Agência Estado

15 Abril 2011 | 15h45

Ilustre desconhecido do grande público a fazer parte da programação da Virada Cultural da cidade de São Paulo na edição deste ano, Roberto de Melo Santos, o Di Melo, apresenta-se no palco República, sábado, às 4h. Ele vai cantar músicas do disco que tem o seu nome, lançado pela EMI-Odeon, como Kilariô, Se o Mundo Acabasse em MelA Vida em Seus Métodos e Má lida, e também parcerias com Geraldo Vandré e Waldir da Fonseca. O álbum, de 1975, teve participação de Hermeto Pascoal e do guitarrista Heraldo do Monte.

Quem aguentar a maratona de espetáculos até o final da madrugada vai curtir muito funk, soul e balanço. Auto alcunhado de "imorrível", o recifense aos poucos volta aos palcos do Brasil e Europa após um hiato de mais de duas décadas durante o qual até chegou a ser considerado morto por alguns fãs, por conta de um acidente de moto ocorrido na década de 1980 e que quase deixou Di Melo paraplégico.

Acompanham o cantor no show os músicos Matheus Alvisi (teclados), Igor Brasil (guitarra), Daniel Coelho (baixo) e Pedro Prado (bateria), Natan Oliveira (trompete) e Marcelo Valezi (sax). Em menos de um mês, esta é a segunda vez que ele toca na capital paulista. No dia 1º de abril, ele fez um show gratuito na Galeria Olido.

Apesar do sucesso, ele se decepcionou com o show business, insatisfeito com os poucos cruzeiros que pingavam na sua conta de direitos autorais. Mas se no passado ele não enxergava motivos para continuar sob os holofotes, hoje ele tem uma série de razões para subir ao palco e voltar a aparecer. Está previsto para o mês de maio o lançamento de um documentário sobre a vida e carreira dele ("Di Melo - Imorrível"), dirigido por Alan Oliveira e Rubens Pásaro, que registrou o show do músico no Festival de Inverno de Garanhuns (PE), em 2009, cujo público estimado foi de 50 mil pessoas. O site do projeto é www.dimeloimorrivel.com.br.

Segundo Di Melo, o rapper Emicida estaria interessado em gravar uma música de sua autoria. Além disso, há a possibilidade dele voltar com a banda ao continente europeu, onde já tocou, para fazer uma turnê internacional até o fim do ano. Na Europa, o pernambucano tem um público cativo, suas músicas são tocadas por DJ''s em algumas casas noturnas, e seu vinil já chegou a ser oferecido por 700 euros. O fenômeno contribuiu para o revival ''dimeliano'' nos dois lados do Atlântico.

E mais um motivo, este especial: uma garota de quatro anos chamada Gabiroba, sua filha. "Ela trouxe toda essa vontade de ganhar o mundo mais uma vez. Talvez, se não fosse por ela, eu ficaria na mesmice", conta. "Minha filha chegou e me deu uma chacoalhada. Eu disse, ''opa, vamos buscar o que ficou para trás."

Passado - Durante o período de afastamento, além de ter ficado "criando, recriando e recreando", segundo ele, acumulando hoje por volta de 400 músicas, fez apresentações em cidades do interior e em festas de amigos. "Prossegui fazendo o que era a fim de fazer, mas não contando com isso para sobreviver", explica.

Em paralelo, ele trabalhou com artes plásticas. E chegou até a tocar e cantar em uma cantina, em São Paulo, canções italianas com roupagem de samba. "A comida não era lá grandes coisas, mas valia pela zorra", brinca.

Na década de 1980, ele compôs em parceria com Vandré 12 músicas. A gravação foi feita no Forte do Cabedelo, João Pessoa. O material estaria perdido na casa do parceiro, mas Di Melo diz que pretende regravá-las futuramente.

Com Vandré também excursionou para o Paraguai e Uruguai. Ao classificar a parceria de ''inusitada'', já que prefere compor sozinho, justifica o êxito da seguinte maneira: "Não havia predisposição para nada, éramos duas tartarugas de férias, ninguém falava nada de sério, estava nem aí para nada. Se fosse de outra maneira acho não rolaria. Viajamos bastante, rimos, nos divertimos, brigamos, foi uma parceria legal." Di Melo já teve músicas gravadas por Jair Rodrigues e Wando, na década de 1970, e abriu shows para Baden Powell.

Malandragem e arte-porrada - Di Melo diz que ouvia "de tudo": Jimi Hendrix, James Brown, Beatles, Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. "Pintava som legal e diferente eu estava ligado", conta. Durante a conversa com a reportagem, ele cantou trechos de três canções que fez "sintonizando" Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, a quem considera uma "raridade". "No mundo não tem um cara com capacidade de criar e recriar em matéria de compor como ele. O Chico não tem uma música ruim", disse.

Inspirado no autor de ''Construção'', compôs os versos: "Desligo do planeta nua, de quimono, quimono, eu vou virar capeta e perturbar seu sono, seu sono, de carro, de lambreta, ou Romi-Isetta eu zono, te zono, pinto na camiseta que ainda sou seu dono, caolho, birolho, cafono, te chamo mula lerda, deserda, te xingo, bem alto, em estéreo ou mono."

Para Gil, o refrão da canção ficou assim: "Foi para mim louvável esse amor, floriu, desboroou, meu coração saracoteou e tudo aquilo se desgovernou. Foi para mim louvável esse amor, floriu, desboroou, e o Pau Brasil saracoteou e tudo aquilo se desgovernou. Eu quero é mais o mar, o ar, a flor e um arco íris multicor, diz para seus pais que o mais é mau do amor e que isso que me enfeitiçou."

E, pensando em Caetano, escreveu: "Afetação carismática, plateia tão climatérica. Moçada ultra simpática, numa postura esbéltica, transações enigmáticas correm em questões magnéticas, num Big Ben telepático meu som se fez depirênico contido em toda galáxia e levantando polêmica."

Di Melo, que mora na capital paulista desde 2008, conta que estudou música formalmente por algum tempo, mas nunca levou a sério porque, segundo ele, "era mais de criar, tinha o negócio do intuitivo". "É aquela história da manha, da maranha, da tramoia, da malemolência e molejo", completa.

Porém, o jogo de cintura não impediu que algumas de suas músicas fossem censuradas pela ditadura militar. Na conta dele, foram cerca de 20 canções recusadas pelos censores. "Nas minhas músicas sempre teve malandragem, jocosidade, mas também a ''arte-porrada'', a crítica. As pessoas não gostam de escutar verdade, vivem de mentirinha", disse. Por sorte, no caso de Di Melo, as pessoas acreditaram em uma morte que nunca aconteceu.

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