DEZ MINUTOS DE PERFEIÇÃO

Lima Duarte, cada vez mais interessado em retratar a própria história, brilha em A Busca, de Luciano Moura

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2013 | 02h49

Lima Duarte é um dos mais premiados atores brasileiros. Só da APCA, Associação Paulista dos Críticos de Artes, ele recebeu cinco troféus de melhor ator, três por suas participações em novelas (Pecado Capital, Espelho Mágico e Roque Santeiro, em 1977, 78 e 86), e dois por filmes (Sargento Getúlio, em 1984, e Eu Tu Eles, em 2001). Por merecidos que possam ser os troféus, e são, não facilitam, para o espectador, a tarefa de amar o intérprete - Lima Duarte é tão convincente como o brutal Getúlio que você, provavelmente, ampliará a repulsa pelo personagem ao ator que o encarna tão bem. O milagre se produz agora em A Busca, que estreia hoje nos cinemas. É como se toda a carreira, toda a grande arte de Lima Duarte fosse uma preparação para os dez ou 15 minutos finais do filme de Luciano Moura.

A Busca é sobre um pai (Wagner Moura), que cai na estrada em busca do filho que desapareceu. No fim do caminho, ele encontra seu pai (Lima), de quem se havia distanciado. Na entrevista publicada pelo Estado no domingo, Wagner confessou que ficou nervoso ao contracenar com Lima Duarte. E disse que queria que o colega gostasse dele. Lima conversa com o repórter pelo telefone. Embora funcionário da Globo - há mais de 40 anos -, ele não mora no balneário, como define o Rio. Tem uma casa no interior de São Paulo (Indanhatuba) e um apartamento na capital, um ponto de pouso. Ele pergunta se tanto entusiasmo não será exagero do repórter? "O filme (A Busca) é mesmo tudo isso?"

Lima gostou muito do roteiro, escrito pelo diretor em parceria com a mulher, Elena Soares. Mas não é que Lima desconfie de roteiros - ele simplesmente acha, ou sabe, que é muito difícil o diretor fazer o filme com que sonha. São muitas as interferências, as dificuldades. Lembra Sargento Getúlio. Ele considera João Ubaldo Ribeiro o maior escritor vivo do Brasil. "O sargento é um animal que serve a uma estrutura de poder que joga com ele. Fizemos o filme com pouquíssimo dinheiro. O carro é um símbolo de transformação. Desbrava o sertão como penetra na mente do personagem, mas o nosso carro (no filme de Hermano Penna) nem andava. A gente tinha de empurrar e fazer a cenas rapidamente, enquanto ele conseguia deslizar."

De sua parte, Lima Duarte espera, cada vez mais, se colocar nos personagens. "Sou o pai no filme, mas construí a cena e o personagem como um encontro com meu pai. Saí de casa porque queria experimentar o mundo, ser ator, e nunca tive esse reencontro com ele." Lima começou no rádio, fez o primeiro filme em 1949 (Quase no Céu), a primeira novela em 1951 (Sua Vida Me Pertence, na Tupi). "O teatro, quando o fazia, nos anos 1960/70, era uma trincheira." Lima se refere à resistência à ditadura militar, quando o elenco do Arena, que integrava, era ameaçado de morte. "A gente subia no palco jurado de tomar tiro", lembra. Teatro como diversão, peças leves para ganhar dinheiro, não faz. Prefere a televisão. É crítico das novelas atuais: "Tudo a mesma coisa. Hoje tem de ter mulher baixando a porrada em mulher. Mas por que o público quer ver isso?".

Ele ironiza a participação na próxima novela das 9, Amor à Vida, de Walcyr Carrasco: "Soube que estava no elenco pela internet, mas fui demitido quando o Vídeo Show apresentou o elenco e eu não estava". Está entusiasmado com o próximo filme que vai fazer com Alain Fresnot, após Lua Cheia e Família Vende Tudo (em que o personagem tinha seu nome, Ariclenes). Em Uma Noite Não É Nada, vai dividir a cena com Fernanda Montenegro, e está empolgado com isso.

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