Jewel Samad/AFP Photo
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Dez anos revistos em fatos e tendências

Jornalista e escritor analisa os acontecimentos que mais marcaram a primeira década do século 21 em Dez Anos Que Encolheram o Mundo

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2011 | 00h00

Entrevista

Daniel Piza

Quantas transformações cabem em uma só década? Tecnologia, geopolítica, guerras - os acontecimentos marcantes dos primeiros dez anos do século 21 oferecem uma possibilidade de resposta se vistos em conjunto, como no livro 2001-2010: Dez Anos Que Encolheram o Mundo, que o jornalista Daniel Piza lança na quinta-feira na Fnac Paulista, com um debate ao lado do historiador Marco Antonio Villa.

O livro (Leya, 224 págs., R$ 34,90) está dividido em cinco partes - Política & Economia, Cultura & Comportamento, Ciência & Tecnologia, Meio Ambiente & Metrópoles e Esportes. Em cada uma delas, Piza, colunista do Estado, analisa os principais acontecimentos da década (reunidos também em uma completa cronologia) e oferece comentários que buscam o diálogo entre eles. "Este livro não pretende ser apenas uma retrospectiva. Mais que uma listagem de fatos e nomes, tem a intenção de refletir sobre as tendências de cada área e as tendências comuns ao longo da primeira década do século 21", diz. Entre elas, o impacto da tecnologia da informação. "Da caixa de uma padaria ao biólogo num laboratório, é raro o profissional hoje que não esteja diante de um computador", escreve o autor, que na entrevista a seguir comenta o processo de confecção do livro.

Como foi a escolha dos temas e fatos abordados? Esse livro vem sendo escrito, ainda que informalmente, ao longo da década ou exigiu um retorno ao período?

Certamente ele veio sendo escrito na minha cabeça, até porque boa parte do meu trabalho como colunista é tentar entender o tempo presente. Mas precisei mergulhar em alguns meses de pesquisa, já que não encontrei trabalho semelhante, apenas retrospectivas da década pela imprensa. Revi muita coisa e acabei vendo melhor as conexões entre tudo que aconteceu. Escrever o livro deu um trabalho muito grande não apenas para reconstituir os fatos, mas para religá-los em tendências e tópicos. Procurei escolher os mais relevantes em cada área.

O que nas transformações da primeira década dos anos 2000 poderia ser - ou foi - previsto? O que lhe pareceu mais surpreendente, a maior ruptura?

Me surpreendeu, por exemplo, o equívoco de muitas das profecias. A questão das vantagens e desvantagens da globalização, ainda tão pertinente, saiu um pouco do noticiário, pois as grandes manifestações em fóruns pararam de acontecer. Em 2001 ninguém previu que os EUA fossem eleger, depois da escalada patriótica contra o terror, um presidente negro, jovem e democrata como Barack Obama - assim como ninguém achou que as populações em regimes islâmicos fossem pedir mais liberdade e menos autocracia. Também me surpreendeu que tão poucas pessoas tenham se detido em entender o alcance da tecnologia não apenas em nossas vidas privadas, mas sobretudo em nossas vidas profissionais. O computador está em tudo.

Como compararia o final do século 20 e o começo do 21 com outro momento de passagem, como a do 19 para o 20, período também marcado por intensas transformações? É possível estabelecer paralelos?

A passagem do século 19 para o 20 foi bem mais interessante em termos de produção científica, intelectual e artística, sem dúvida. Não tivemos um século depois os equivalentes de Einstein, Freud, Van Gogh, Proust. Mas um ponto comum foi o ganho de liberdades individuais e democráticas, no caso recente por causa de invenções como a internet e muitos outros fatores. Não podemos reclamar de tédio... Mesmo nas artes, vimos vigor na arquitetura, no cinema, na narrativa de não ficção. E os esportes geraram ídolos dignos de qualquer outra época.

Depois de um exercício de análise retrospectiva, um exercício de futurologia: como você imagina que o mundo descrito no seu livro vá se desenvolver nos próximos dez anos? Existe uma área ou campo em que essa previsão é especialmente difícil?

O mais difícil é o campo político. É bem provável que a China fique cada vez mais forte, não só em termos de crescimento do PIB, mas em áreas como educação e mesmo nas artes. Os chineses já estão dominando os concursos internacionais de piano! Também investem pesado em tecnologia, então cada vez veremos mais computadores, gadgets e carros chineses. Acho também que o processo de abertura democrática ou semidemocrática no mundo árabe vai continuar. Sou mais pessimista em relação a alguns traços de comportamento. O consumismo e as celebridades tomaram conta dos corações e mentes e se dá valor cada vez maior às aparências, em prejuízo das qualidades pessoais e da cultura geral. Há muita informação e pouca formação...

DEZ ANOS QUE ENCOLHERAM O MUNDO

Lançamento: Fnac. Av. Paulista, 901. 5ª, 19h30

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