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Dez anos no Iraque

Os Estados Unidos se debruçam sobre a comemoração do décimo aniversário do início da Guerra do Iraque na forma de reflexões, ponderações, lamentos e sutis autojustificativas. Pessoas que fizeram rufar os tambores da guerra agora se atormentam com todos os chacinados e mutilados; pessoas que advertiram desde o começo que invadir o Iraque seria catastrófico recebem um modesto reconhecimento; pessoas que eram pela guerra agora lamentam seu ardor, mas continuam a argumentar que os Estados Unidos não devem se abster de se envolver no exterior quando existe uma obrigação moral para fazê-lo.

Lee Siegel, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2013 | 02h11

Algumas dessas pessoas são dignas e honestas, algumas, exatamente o oposto, a maioria em algum ponto entre as duas coisas. Mas as verdadeiras causas da guerra raramente são discutidas.

Uma foi, muito simplesmente, o estado vulnerável da mídia às vésperas da invasão. Antes de haver a alucinação das armas de destruição em massa de Saddam Hussein, havia a internet. O advento da web semeou terror nos corações até dos mais bem intencionados editores e produtores. Por feio que possa parecer dizer isso, a guerra - em um nível consciente ou inconsciente - lhes veio como uma salvação.

A blogosfera não poderia competir com os recursos das grandes organizações noticiosas que tinham a capacidade de enviar repórteres ao Oriente Médio. Assim, a invasão do Iraque era algo que somente a combalida mídia convencional poderia cobrir. "Viés confirmatório" é o nome robótico que neurocientistas dão ao fenômeno de encontrar provas para uma tese que se acredita ser verdadeira. Mesmo aquelas pessoas da mídia que sabiam que Saddam não possuía armas de destruição em massa no contexto político não puderam resistir à suspeita de que ele as tinha no contexto de sua profissão ameaçada. A Guerra do Iraque tirou a vida de milhares de soldados americanos e de quase 1 milhão de iraquianos, e mutilou centenas de milhares de outros, dos dois lados. Mas salvou a mídia americana.

É difícil escrever sobre a Guerra no Iraque sem um abjeto cinismo porque, durante quase dez anos de carnificina, se você vivia em uma grande cidade americana, não tinha a menor sensação de que estivesse havendo alguma guerra. Por toda a América rural e interiorana, quase todos tinham um ente querido lutando na guerra, ou sabiam de alguém que estivesse. Isso significa que havia um número crescente de pessoas esfrangalhadas ou de luto em todos esses lugares também. Mas durante todo esse tempo, jamais encontrei uma única pessoa em meus círculos em Nova York ou Los Angeles que tivesse uma relação pessoal com a guerra.

Isso não significa que a guerra não afetou os grandes centros metropolitanos. Seguramente afetou. Sei de pessoas que foram ao Iraque por dez minutos e voltaram com polpudos contratos para escrever livros. Ou conseguiam que alguma revista lhes pagasse uma pequena fortuna enquanto buscavam glória e fama em segurança atrás das linhas. Um conhecido meu que era crítico de cinema num jornal diário convenceu seus editores a deixá-lo ser correspondente de Guerra no Iraque. Outro, um primo - não suficientemente - distante, que havia estudado administração em Harvard, ansiava ir ao Iraque porque sentia que havia "oportunidades" por lá. Sua mãe, acredito, o convenceu de que a guerra não significa apenas oportunidades econômicas - isso ela oferece, de fato -, mas também bombas e balas, e ele adiou indefinidamente sua aventura.

Só há realmente uma coisa a dizer sobre a Guerra do Iraque e um punhado de pessoas a disse ousada e lindamente. Ela foi um absoluto, consumado, indesculpável, imperdoável desastre. Foi empreendida por (George W.) Bush porque ele havia sido emasculado por seu pai, e porque provavelmente ainda era um alcoólatra na época; empreendida por (o vice-presidente Dick) Cheney, que manipulou Bush para consolidar seu próprio poder; possibilitada pela mídia para salvar sua própria pele; e saudada por entendidos e intelectuais que se entregaram a uma fantasia alucinada de agressão e retificação porque sofrem com o abismo vertiginoso entre suas mentes poderosas e a real impotência que experimentaram no mundo.

O comentário mais eloquente e cáustico sobre o aniversário da guerra veio numa carta aberta a Bush e Cheney de um veterano do Exército americano que lutou no Iraque chamado Tomas Young, que está morrendo num hospital dos ferimentos sofridos naquele conflito. Em sua carta, publicada na internet, ele diz que está escrevendo em nome de todos - americanos e iraquianos - que morreram ou foram feridos na guerra. Ele diz a Bush e Cheney: "Vocês podem escapar da Justiça, mas aos nossos olhos, cada um de vocês é culpado de crimes de guerra odiosos, de saque, e, finalmente, de assassinato..." "Espero", diz ele, "que sejam julgados".

Bush e Cheney jamais enfrentarão um julgamento, mas não há nada a acrescentar ao grito perturbador, inesquecível, do coração de Young. Os arquitetos da guerra alegaram que sentiram uma sede de justiça em favor de todos os iraquianos que iam "libertar" e "democratizar". A amarga ironia é que Young, e todos os seres humanos dilacerados pela guerra, são os que agora estão clamando por justiça com toda a paixão e a retidão moral que os instigadores da Guerra no Iraque alegavam ter, mas não tinham.

Atribuem a Hermann Goering, que teria apreciado a amoralidade de Cheney e suas astuciosas apropriações do poder, a declaração "Quando ouço a palavra 'cultura', levo a mão ao revólver". Após a carnificina no Iraque, quando eu ouço a palavra "guerra", ou a palavra "democratização", ou mesmo as palavras "intervenção humanitária", vou procurar os passaportes de minha família.

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