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Gilles Lapouge
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Dez anos de mar e gelo

Algo estranho aconteceu nesta temporada na literatura francesa: o livro de uma mulher de 53 anos, totalmente desconhecida, publicado em fevereiro sem o menor apoio. Em poucas semanas, Le Grand Marin eclipsa todo o resto. Traduzido em sete países, entre os quais os Estados Unidos, já recebeu cinco prêmios literários e promete ganhar outros. Um verdadeiro vendaval. Sucesso total.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2016 | 02h00

A escritora, que, em alguns dias, passa da sombra mais negra para a luz solar, é uma pastora. Mas o seu romance não fala de ovelhas nem de cordeiros; Catherine Poulain narra uma experiência vivida tempos atrás por ela: antes de ser pastora nos montes (os Alpes), ela morou durante dez anos num barco para a pesca do bacalhau negro e de caranguejos nos mares gelados do Alasca.

Uma experiência terrível. Contudo, não basta realizar uma façanha física para tornar-se um grande escritor. Bastou para Catherine Poulain. Li este livro em março, sem ter qualquer informação a respeito da autora. Ele chegou num silêncio total. Folheei distraidamente algumas páginas e, ao cabo de 20 minutos, ele tinha me conquistado.

Antes disso, só experimentara uma única vez uma impressão semelhante: no dia em que, há 40 anos, abri o primeiro livro de um albanês desconhecido, O General do Exército Morto, de Ismail Kadaré. Algumas páginas depois, eu já sabia que acabava de descobrir um dos grandes escritores do seu tempo.

Catherine Poulain limita-se a contar sua vida. É uma jovem que sufoca na pequena aldeia onde mora. Decide, então, partir. Para sobreviver, ruma para Nova York. Os marginais. Ela precisa de licores mais sombrios, e mais luminosos. O Norte. A bruma, o gelo, o uivo dos ventos, o mar em delírio. Catherine chega ao Alasca, a Kodiak.

No porto, tenta conseguir um trabalho. A pesca do bacalhau nessas latitudes é o ofício mais duro do mundo, o mais perigoso. E Catherine nunca viajou de navio. Além disso, é uma mulher, e, inclusive, não é uma mulher forte. É frágil. Entretanto, consegue ser contratada.

A vida a bordo. Sozinha entre homens que não são nada sentimentais e não necessariamente românticos. Ela dorme no chão mesmo. A umidade. O gelo. As longas horas de vigília, as noites, o trabalho, as mãos que queimam ao tirar os peixes da linha e limpá-los.

“Mais uma vez, mergulho minha faca nos ventres brancos. A carne lisa e tenra resiste um instante, depois ela cede. A lâmina afunda de um golpe. O sangue jorra no mesmo instante e inunda a mesa. Escorre sobre o deck em rios escarlates. Somos uns assassinos, os mercenários do oceano, da sua mesma cor.”

Esta vida dura dez anos, dez anos de gelo e de vento, dez anos de dor, porque Catherine (frequentemente) se fere com certa gravidade com os anzóis ou com os espinhos dos bacalhaus muito venenosos; e cada vez, vai para terra, passa alguns dias num hospital, e retorna a bordo.

Dez anos de labuta, sofrimento e perigos. E dez anos de alegria. Porque aí está o mistério deste texto: extrair do terrível algo magnífico, alegria. Penetrar, como por uma porta oculta, na beleza das coisas.

E, depois, há esse grupo de marinheiros. De início, eles são cautelosos. Amáveis, sem ser forçados. Sem gritos nem queixas, ela acaba ganhando o respeito de todos esses homens. Além disso, para ganhar sua estima, sua amizade, está sempre trabalhando. Não há o que dizer. Respeito, respeito total. Um dia, ela se apaixona por um dos marinheiros, o mais selvagem. “O homem leão”, o que ela amará. O Grande Marinheiro.

Após dez anos, e como ela não tem documentos americanos, deve deixar o Alasca. Volta para a França. Volta para a sua aldeia nos Alpes do sul. Torna-se pastora. Sozinha, nos picos mais gélidos com suas centenas de ovelhas e cordeiros, no vento e no frio dos cumes. Catherine não fala deste novo período de sua vida no Le Grand Marin (Éditions de l’Olivier, 98 boulevard du Montparnasse – 75014, Paris).

Hoje, ela não é mais jovem. Leva uma vida muito dura sobre sua montanha, uma vida muito pobre, muito solitária. Está cansada. Então, em folhas de caderno, começa a descrever sua vida no Alasca, e envia 80 folhas a um editor. Entusiasmo. Ela termina sua narração. O livro é publicado, e, em poucas semanas, de Nova York a Moscou, na Itália, na Inglaterra, em Paris, só se fala em Catherine Poulain ou Le Grand Marin.

Comenta-se que nos meios literários são comuns as conivências, os pistolões, as pressões, e que ninguém pode se tornar conhecido sem sacrificar esses rituais. Catherine acaba com essas bobagens, como o vento acaba com as nuvens. Sem um apoio: uma desconhecida. Sem o empurrão de algum especialista em comunicações. Sozinha, uma mulher sozinha, como ontem a moça sozinha enfrentava as noites de gelo e de beleza no Grande Norte. Uma mulher. E agora o silêncio do livro, para se ouvir esta voz. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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