Deviam proibir os carros

Uma sobrinha de 20 anos não está à toa na vida. Pertencer a uma geração sem bandeiras, que os mais velhos, grupo social e etário que antigamente chamávamos de coroas, desdenham? Que nada.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2013 | 02h12

Participou da Parada Gay, Marcha da Maconha, Marcha das Vadias, Veta Dilma, Existe Amor Em SP, apoia o Femen e Fora Pastor Feliciano. Seu sobrenome nas redes sociais virou Guarany Kayowá, fato que demorou para ser digerido pelos mais velhos da família. Musa da juventude socialista e constantemente assediada para se filiar ao PSOL, PCO e PSTU, é contra o capitalismo. E contra o jogo viciado de alianças escusas do PT com a burguesia. Mas desconfia que alguns garotos da juventude socialista só querem ir pra cama com ela. Dão indícios de um comportamento pequeno-burguês que vê a mulher como objeto. Só de birra, ficou com uma mina do MST na última festa da Caros Amigos. O Movimento Passe Livre é sua atual prioridade.

Já foi careca, já usou dreadlocks. Já namorou um skatista que levava três horas para vê-la, pois atravessava a cidade num trem, dois bumbas, um metrô e uma van clandestina. Namorou uma menina diretora de teatro da Praça Roosevelt, um puxador de samba, o dono de um sebo, de bar da Vila Madalena e um chefe de cozinha de um restaurante catalão.

Hoje em dia, ela veste a mesma roupa que a mãe e as tias vestiam décadas atrás. Você assistiu ao filme Depois de Maio (Olivier Assayas)? Se passa, mais precisamente, em 1971. O figurino dela é o mesmo. A sobrinha se veste como nos vestíamos quando combatíamos a ditadura, a censura, a caretice, Flávio Cavalcanti, a galera "disco", o tabu da virgindade e a ressaca de bebidas paraguaias. Os sapatos, colares, adornos, pulseiras, são os mesmos. A touca, o poncho e a bolsa, aquela de alça, confeccionados por nossos irmãos camponeses do Peru, sufocados por cinco séculos de dominação imperialista, como nós, são os mesmos.

A riquinha da atual novela das 9 teve um surto hipster e também passou a usar as mesmas roupas, depois de conhecer Machu Picchu, no primeiro capítulo. A sobrinha ficou curiosa. Aparecerão milhares de mulheres pelas ruas se vestindo como ela, depois que a TV fosse inundada por anúncios de batas e pantalonas a R$ 19,99? Não. A patricinha da novela voltou ao Brasil no segundo capítulo e deixou seu lapso, dilemas sociais e o namorado mezzo-peruano para trás, para assumir os negócios da família. Especialmente depois do papai bloquear seu cartão de crédito, enquanto ela e o hiporonga vagavam livremente pelos Andes.

Quando deixamos de usar bolsas de alças largas, que desciam até o quadril, que prendíamos com a mão ao correr da polícia, por mochilas de nylon de marcas esportivas imperialistas que escravizam trabalhadores orientais, danificam a lombar e transformam o andar de uma geração semelhante ao esforço de um garimpeiro de Serra Pelada com o suingue de um estivador?

A sobrinha estava exaltada no encontro familiar de ontem. Porque todos os protestos de que ela participa são tachados de badernas, seus colegas, de vândalos, porque os manifestantes são processados por formação de quadrilha e tratados como marginais, quando deveriam ter o status de preso político. A imprensa burguesa, disse ela, apontando para o tio jornalista esportivo, nem debate nossa reivindicação, apenas reclama que atrapalhamos o trânsito! O trânsito só acaba com transporte público! Agora que a polícia se excedeu, vocês nos levam a sério.

O que causou alvoroço na sobremesa, pois minha prima ficou terça-feira presa duas horas na Marginal, trazendo minha tia da hidroginástica, onde foi cuidar da atrite, enquanto 200 manifestantes queimaram cones e travaram a pista expressa, para reivindicar a redução de 20 centavos na tarifa de ônibus: "Se a tarifa não baixar, a cidade vai parar!". Querem transporte público, mas depredam estações de metrô?, reclamou a prima.

"Ela se casou com um índio?", perguntou a tia com problemas de vista e audição.

"Não. É um protesto", respondeu outra.

"Contra o aumento da passagem?"

"Outro."

O debate se estendeu. Meu movimento é Por Uma Vida Sem Catracas, quero a tarifa zero. Ônibus grátis para toda a população? Mas isso não existe! Em Tallinn existe. Mas Tallinn é menor do que a Mooca, disse o jornalista esportivo da imprensa burguesa. Em Sydney existe. Em Agudos, Porto Real, Ivaiporã. Até Paulínia já teve tarifa zero. Isso custaria seis bilhões aos cofres públicos, calculou o tio ligado em finanças públicas.

"Transporte é um direito fundamental, como educação e saúde. Tarifa zero é a maneira de assegurar o direito de ir e vir da população e pode ser feita por um Fundo de Transportes. Quem pode mais, paga mais, quem pode menos, paga menos, e quem não pode, não paga. Aumentem o IPTU de bancos, mansões, hotéis, shoppings. Que setores mais ricos das cidades contribuam para existência de um sistema de transportes verdadeiramente público, gratuito e de qualidade, acessível a toda população, sem exclusão social", disse, como se estivesse no vão livre do Masp.

"Então avise quando tiver outro protesto, que não quero ficar presa num congestionamento monstro!", gritou a prima.

A sobrinha Guarany Kayowá, que é contra a construção da Usina Belo Monte, anda tensa. Ninguém a entende. Nem esperou o café. Pegou a bolsa peruana comprada de um ambulante boliviano do Brás, onde nasceram as tias e avó, ao lado da Mooca, e foi pro quarto, para encontrar aliados nas redes sociais.

Não ouviu a avó sugerir, com um picolé na mão: "Deviam proibir os carros!".

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