DEVENDRA

Bardo do freak folk lança um dos álbuns mais conceituais de sua carreira, Mala, ao lado da mulher, a modelo Ana Kraš

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2013 | 02h13

Devendra Banhart é um culto de poucos, mas um culto tenaz e consolidado. Desde que surgiu na cena musical, há uns 10 anos, com seu ideário neo-hippie e a antena musical indie-tropicalista, virou herói em todos os recantos do mundo. Enquadraram-no em um ramo bizarro, o freak folk.

Por isso, é curioso vê-lo retornar agora com o cabelinho aparado, um certo ar yuppie e polinizando uns versos desencantados em Mala (Warner/Nonesuch), seu oitavo disco. "O amor será como um pai biológico há muito desconhecido", ele canta. Ou então: "Amor, você é um parceiro estranho". Ou ainda: "Isso não é o fim do mundo/ Mas também não é o começo de um novo". É quase um manifesto de antirromantismo, embora ele esteja no auge de uma paixão.

"O pessimismo é libertador", explica Devendra, de 31 anos, falando ao Estado por telefone, de Nova York. "O pessimismo me liberta para ser otimista. O humor e o sarcasmo derrubam barreiras, clareiam o caminho", continua. Nascido no Texas, criado na Venezuela até os 15 anos, recondicionado na Califórnia, ex-namorado de Natalie Portman, amigo de brasileiros como Cibelle e fã dos Novos Baianos e dos Secos & Molhados, ele habita uma região de difícil catalogação na música, entre o folk e o experimental, entre a neobossa e o "pop impopular", como ele diz, se autossacaneando.

Sua nova odisseia sonora, Mala, foi gravada com o parceiro Noah Georgeson em seu estúdio caseiro em Los Angeles. "Rodrigo tocou bateria e guitarra no disco todo, e agora vai seguir com a gente para a turnê do disco", conta Banhart. "Rodrigo" é Rodrigo Amarante, dos Los Hermanos. Devendra adianta que, após a turnê pelos Estados Unidos e pela Europa, trará o concerto para o Brasil.

"Quero ir a Salvador, a Brasília, a Curitiba, ao Rio de Janeiro, a São Paulo. É fácil ir à América do Sul com uma turnê? Não, é complicado. Mas vou fazer o diabo para ir, porque é fundamental para a gente tocar aí. Se tudo der certo, lá por volta de setembro, outubro, estaremos no Brasil."

Mala (significa pequena, em sérvio) tem participação vocal da atual namorada no músico, a modelo, fotógrafa e designer sérvia Ana Kraš. Ela murmura, como Jane Birkin e Brigitte Bardot nos discos de Serge Gainsbourg, em duas faixas: Your Fine Petting Duck e Tarobolium. A história de como se encontraram é famosa: ela foi ao seu apartamento em Nova York para uma entrevista. Ao final da conversa, ele a pediu em casamento e ela nunca mais voltou para casa.

"A influência dela é evidente, mas não no conteúdo. Ela foi inspiradora, deu ideias, apoio, além de cantar lindamente no disco", afirma o cantor. Ele também não assume influências sub-reptícias de Frank Zappa, cuja presença se pode sentir em Hatchet Wound e em outros momentos ("Eu não sou Lincoln Zapatone", ele chega a cantar, em Cristobal Risquez).

"Olha, é uma honra ter qualquer tipo de comparação com Zappa. Eu sempre o admirei, sempre reverenciei o trabalho dele, era um dos meus ídolos juvenis. Mas o fato é que ele não é uma das minhas influências, ele não foi um dos elementos que eu pesquisei para esse disco", esclarece o cantor.

Como de hábito, a língua espanhola comparece no disco de Devendra. Desde Niño Rojo (2005), sempre há uma canção simbólica de sua segunda nacionalidade, a venezuelana. Desta vez é Mi Negrita - que não tem parentesco com Drume Negrita (de Eliseo Grenet) -, grande sucesso de Bola de Nieve. "Muita gente gravou Drume Negrita, é uma linda canção. Eu conheço diversas versões, a de Bola de Nieve é fabulosa. Mas não tem ligação, eu não estava ligado a esse universo no momento em que a compus, é outro tipo de estrutura."

O cantor comentou brevemente a recente morte de Hugo Chávez, o presidente do país em que cresceu. "Toda morte de uma pessoa me entristece. Com ele não seria diferente. Vi a comoção popular, foi impressionante. Mas isso não quer dizer que eu aprove tudo o que ele fez em seu país."

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