Deuses Gregos, 200 peças do museu Pergamon de Berlim

Parâmetro inquestionável da arte ocidental, a Grécia antiga é permanentemente revisitada, não apenas para conhecer melhor seus grandiosos feitos, mas para ajudar a nos compreender melhor. E, no entanto, raríssimas são as oportunidades, para leigos ou estudiosos, de ver de perto exemplares dessa produção material que constitui uma das bases da nossa cultura. Daí a importância da mostra "Deuses Gregos", que o museu da Faap inaugura neste sábado. Reunindo 200 obras selecionadas a dedo no acervo do Museu Pergamon de Berlim - uma das três maiores coleções greco-romanas no mundo -, a exposição tem por eixo central um dos temas mais sedutores relacionados à Grécia antiga: sua mitologia.Vênus, Eros, Zeus, Apolo e outros deuses, heróis e entes mágicos são as estrelas da exposição. Povoam tanto o panteão central, como os outros núcleos da grande mostra, dedicados ao teatro, à música, à devoção religiosa, à relação com a natureza e às forças divinas. Alguns são imediatamente reconhecíveis, outros exigem a decodificação de símbolos e atributos. Essa é a primeira vez que tantos deles deixam a morada na Ilha dos Museus de Berlim, já que é a primeira grande exposição que o museu realiza fora da Alemanha. Como muitas dessas obras foram especialmente restauradas e estudadas para a mostra, depois daqui ela será reexibida na própria casa, para que o público alemão também possa apreciar o resultado. A curadoria, assinada pela arqueóloga alemã Dagmar Grassinger e pelo antropólogo brasileiro Tiago de Oliveira Pinto, optou por não fazer um recorte estilístico ou cronológico, priorizando aproximações por tema ou afinidades entre os personagens. A seleção contempla obras tanto do período arcaico (a menos representada, com obras que fazem uma espécie de ponte com a tradição egípcia), como do período clássico e do helênico, às vezes com mesclas de gênero. Uma das características destacadas por Oliveira Pinto é a transformação na representação ao longo do tempo: ?Os deuses vão ficando mais jovens e mais nus?, afirma, atribuindo essas mudanças às evoluções próprias da sociedade e à busca das proporções ideais do corpo humano, facilitada pela nudez.AbrangênciaUm dos aspectos mais atraentes da mostra é a somatória de tempos históricos que ela abrange e os nexos geopolíticos envolvidos aí. Afinal, lá estão contempladas peças desde o século 7 antes de Cristo, até uma série de cópias de esculturas gregas realizadas nos primeiros dois séculos da nossa era pelos romanos. Fascinados com esse universo da criação plástica grega, em que a forma ideal, equilibrada, é construída a partir da mescla de modelos ideais e da observação do corpo humano, é por meio deles que o trabalho de mestres ilustres como Fídias, Praxíteles e seus seguidores, chegou até nós. Mas essa revelação não foi imediata. É o renascimento que recoloca os modelos clássicos da arte greco-romana no papel de protagonistas. Ao percorrer as salas da mostra salta aos olhos essa relação evidente entre a arte européia a partir do século 16 e seu principal modelo estético.Também é interessante destacar a forma intensa com que a leitura museológica parece transpirar dessas peças. Afinal, elas foram adquiridas ao longo de séculos pelos alemães, principalmente na Turquia (com quem tinham boas relações diplomáticas) e foram sendo pouco a pouco estudadas, restauradas, preparadas para o embate com o público. Um indício sutil e interessante são os pedestais usados. Alguns, em mármore escuro, trazem a assinatura de seu tempo - o romantismo alemão do século 18. Outros evidenciam a filiação ao modernismo dos anos anteriores à guerra. O mesmo ocorre em relação ao modelo de restauro. Antigamente as peças eram lixadas, ficavam polidas. Hoje o grau de intervenção é bem menor, como é possível constatar nas várias peças restauradas especialmente para a mostra brasileira.Vivendo entre a Alemanha e o Brasil, Oliveira Pinto destaca também, na exposição, interessantes ângulos de observação capazes de atrair o público brasileiro, mais familiarizado com os deuses com sentimentos humanos, com uma relação intensa com a natureza e suas divindades, do que com os deuses da tradição racional européia. E oportunamente lembra que, assim como os gregos, nossos orixás também amam, brigam, geram filhos, têm seus símbolos, funções e elementos sob seu comando.Deuses Gregos. Museu de Arte Brasileira da Faap. Rua Alagoas, 903., 3662-7198. 3.ª a 6.ª, 10h às 20h (sáb. E dom. Até 17h). Até 26/11. Abertura neste domingo, às 19h, para convidados.

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