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Deuses

O show do Chico no Rio tem sido uma apoteose depois da outra

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2018 | 02h00

Candide, o otimista da obra de Voltaire, pergunta a seu amigo Martin “para que fim foi formado o mundo?”. Martin, um pessimista, responde: “Para nos enfurecer”. É uma teoria da Criação original, a de um deus que montou um universo inexplicável só para nos sacanear. Não faltam razões para nos desesperarmos não apenas com a impossibilidade de decifrar o cosmos como a de entender a miséria, a injustiça, a doença, as guerras, a morte, o Donald Trump e a má fase do Internacional. No Brasil, enfurecemo-nos diariamente com o que o deus sádico de Martin nos apronta. Com a mediocridade dos nossos políticos e das nossas elites e com a hipocrisia permeando tudo - sem falar no Gilmar Mendes.

E no entanto... Tem tanta coisa boa acontecendo no Brasil, principalmente na área das artes onde o talento determina tudo - apesar da pouca verba e de um claro descaso oficial pela cultura -, que dá para acreditar que haja um outro deus, este bem-intencionado, do nosso lado. Há semanas eu estava numa apresentação da maravilhosa Mônica Salmaso com uma orquestra de câmara formada por jovens da periferia de São Paulo, e pensei: tem que haver um jeito desse Brasil, o Brasil do talento e do engajamento social, impor-se no Brasil dos medíocres. Não vai ser fácil. (A orquestra de câmara dos jovens estava fazendo sua última apresentação, por falta de apoio.) Mas não nos enfureçamos. O show do Chico no Rio tem sido uma apoteose depois da outra. O público ovaciona o talento do Chico e o outro Brasil que ele representa.

Esquecidos. Há dias escrevi aqui sobre os artigos do Carlos Heitor Cony contra o golpe de 64, e disse que o Cony foi uma exceção entre os jornalistas brasileiros, o único que se manifestou, pelo menos com a sua constância e agudez. O leitor Nilo Dante me corrige. Lembra “outros irmãos” em armas do Cony na memorável trincheira do Correio da Manhã, de combate ao regime militar de 1964. E cita Carlos Drummond de Andrade (“o primeiro a atacar já na edição de 4 de abril de 64”), Edmundo Moniz, Antonio Callado, Otto Maria Carpeaux, Marcito Moreira Alves, Hermano Alves, Cicero Sandroni e Joel Silveira, “para ficar nos principais combatentes, sem mencionar o diretor de redação Osvaldo Peralva e a dona do jornal, Niomar Moniz Sodré, que pilotaram a batalha”.

Obrigado Nilo Dante. Faço a correção com prazer e peço desculpa a todos os esquecidos. Minha única defesa é que em março de 64 eu estava em lua de mel...

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