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Leandro Karnal
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Deus e Ray Conniff

Tenho uma intuição de que ninguém perde a fé lendo autores anticlericais ou ateus

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2017 | 02h00

Um dia fui apresentado à ideia da eternidade divina. Deus sempre existiu e sempre existirá. Não me lembro, ao longo de toda infância e adolescência, de ter encontrado algum colega, amigo ou escrito que colocasse em dúvida a onipotência e eternidade divinas. A fé era o oxigênio, a essência do nosso mundo. 

Minha identidade religiosa era católica. Na capela do colégio, quando a irmã Eloísa (sem h) tocava no grande harmônio Schiedmayer o hino pontifício de Gounod, eu sentia que estava na margem correta do rio da verdade. Não conhecia outra. A certeza gerava uma tranquilidade feliz. Na versão de D. Marcos Barbosa OSB, o coro do colégio quase gritava: Ó Roma eterna, dos mártires dos santos, Ó Roma eterna, acolhe nossos cantos! Glória no alto, ao Deus de Majestade, paz sobre a Terra, justiça e caridade. A luz azulada dos vitrais alemães entrava no fim da tarde e minha fé era, naquele momento, o cruzamento da beleza estética, da tradição histórica e da força repetidora da minha tribo. 

Na biblioteca do meu pai descobri Eça de Queirós. Li O Crime do Padre Amaro e A Relíquia. Eram textos do liberalismo anticlerical do século 19. Um padre que engravidava uma moça e um tartufo português foram baques fortes na adolescência. Porém, não me lembro de ter ficado muito abalado, mas, pelo contrário, feliz em viver cercado de bons padres e freiras. O mal parecia ficcional. O bem era próximo e biográfico. Acabei lendo toda a obra do português e tendo muito prazer. Não estava ali a semente da minha descrença. Meu pai era católico ultramontano e também apreciava O Primo Basílio e As Cidades e as Serras. Eça escrevia muito bem: se fosse ateu ou chacoalhador de rosários, continuaria sendo um gênio. 

A leitura de Sartre foi mais forte. Descobri no ensino médio e continuei na faculdade. Ecoava em mim a ideia da palestra tornada panfleto do existencialismo: ainda que Deus existisse, em nada alteraria a situação humana. Estávamos condenados à liberdade. A onisciência divina era incompatível com livre-arbítrio, dizia o autor de O Existencialismo É Um Humanismo.

Tenho uma intuição de que ninguém perde a fé lendo autores anticlericais ou ateus, mas que questionamentos pessoais levam a autores que endossem nossa posição. O ateísmo intelectual é buscado porque existe um sentimento de afastamento e construção de identidade distinta dos nossos pais e do nosso meio. A rebeldia filosófica e histórica pode chegar depois de uma rebeldia freudiana. Em alguns casos, “não creio em Deus” quer dizer “não creio no Deus dos meus pais” e, por extensão, sou alguém que tem uma vida própria. Rejeitar Deus estava no mesmo pacote de rejeitar o gosto do meu pai pela música de Ray Conniff. 

A segunda instância da descrença era social. O meio universitário era cético. Ser ateu, agnóstico ou crítico da Igreja ao menos dava status. A gente parecia mais “descolado” se ironizasse a pretensão metafísica alheia. Éramos estudantes de História. Trazer exemplos históricos de corrupção eclesiástica à tona era de um iconoclasmo sedutor. O Leandro que cantara a marcha de Gounod tinha de analisar a vida de Alexandre VI e suas amantes, de Júlio II e seus amantes e até das hemorroidas de Leão X. A humanização do papado abalava a pompa da Marcha Pontifícia. Então, a proctologia pontifícia era a materialização de um papado mais humano. 

Como eu disse, não creio que a Filosofia e a História sejam a raiz da descrença. Ser crítico era enfrentar. A professora de História moderna era conservadora e a universidade era jesuítica: a liberdade implicava anticlericalismo. O estudo do “desencantamento do mundo” de Weber não causava, mas reforçava a criação do nosso próprio mundo. Era proibido desprezar a pobreza, a América Latina ou a ideia da justiça social. Racistas eram excomungados do grupo. Mas... era lícito e bom ironizar a Igreja. Bem afirmaria o futuro papa Bento XVI que o ataque contra a religião era o único preconceito academicamente aceito.

Volto a Freud e a Deus. Havia o desejo sexual. O imperativo hormonal se chocava com a religião. Tudo o que o corpo gritava como “eu quero” a moral religiosa dizia “não pode”. Não parecia possível conciliar os dois mundos, ainda que a Bíblia descrevesse o mesmo choque em tantos patriarcas e reis. Davi desejou Betsabá e, ao decidir sem levar em conta a regra divina, atraiu desgraças para si e para o povo. Jacó deitou-se com a noiva trocada, ainda que seu crime fosse culposo. Onan foi fulminado por Deus. 

A solução dos dilemas descritos varia muito. A incapacidade de adaptar o Deus da infância ao mundo adulto é um obstáculo que gera muita descrença. É provável que muitas revoltas religiosas tenham esta fé de vetor contrário. Nossas perdas pessoais e nossa desilusão precisam de um culpado. Rejeitar o Deus de barbas brancas e moralista deveria ser uma evolução na fé e não uma negação do sagrado. Separar Deus das instituições que o representam seria um gesto de lucidez e reforço de crença, como foi para o profeta Amós. Nada mais religioso e profético do que a denúncia e a revolta, mas suportar nossos amplos defeitos, como lemos em Gálatas 6,2-3.

Como incorporar Deus à contingência e à falência dos sonhos? Como aceitar que tantas pessoas que se dizem religiosas sejam tão banais, agressivas e toscas? Se eu fosse o demônio e pretendesse destruir a fé não incentivaria o ceticismo, mas reforçaria o moralismo do beato. Adaptando a ideia de Giovanni Boccaccio, a sobrevivência das Igrejas apesar de seus pastores é uma prova irrefutável de que existe um Deus. 

Não existe uma boa solução para tais dilemas. A dor da vida explica o joelho que se dobra e o ceticismo que se levanta. Religiosos e ateus procuram uma solução como as pílulas vermelha e azul do filme Matrix. Ambas funcionam e ambas fracassam. Não tenho a resposta, mas desconfio que parte dela esteja em escutar Ray Conniff. 

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