Deus e o diabo na terra do romance

Com sua inclinação natural para o desterro, Bernanos levou a ficção católica a um reduto de ordem própria

Leda Tenório da Motta, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

Na literatura francesa do século 20, pela altura do entre-guerras, dá-se uma virada notável: uma entrada em crise da modernidade e uma volta dos melhores escritores para o seio da Igreja. Mais interessante é que os valores religiosos que terminam por tornar-se, assim, novamente, um lugar de abrigo para alguns dos melhores espíritos, retomam a cena no momento mesmo da emergência da figura do intelectual, nas fileiras laicas, republicanas e tendentes ao socialismo dos ativistas do Caso Dreyfus.

É então que a desconstrução do romance - iniciada pela Nouvelle Revue Française, sob a condução de André Gide, um imoralista que se reivindica como tal, continuada pelos surrealistas, que consideram as ficções bem construídas um insulto ao mistério do homem, e arrematada por Proust -,termina por esbarrar também numa inesperada revitalização do gênero. E despontam agora, imunes à pane da poesia e da prosa e ao sarcasmo dela inseparável, estes narradores de velha escola, que fazem elo com os moralistas do século 17 a que se deve a invenção do romance francês: os escritores católicos.

É nesse movimento do romance depois do romance que vem Georges Bernanos. Ele forma, junto com François Mauriac e Paul Claudel, um reduto de ordem própria, um enclave no materialismo contemporâneo, que os estudiosos tentam abordar com as mesmas armas que aplicam aos autores das revoltas, mas invertendo a lógica. Assim, lemos nos bons manuais que esse conservadorismo anacrônico, que não obstante surte vida inteligente e de que saem algumas obras-primas, bebe na mesma fonte que André Breton. A mesma História terrífica teria produzido, de um lado, os detratores do humanismo, o tapa na cara dos sentimentos burgueses, os desvios máximos de linguagem dos experimentalistas derrisórios e, de outro, a inquietude espiritual de um trio de fervorosos que crê não apenas na transcendência, na mediação marial e na mística de Jeanne d"Arc, mas também na terra mater francesa e no passado gaulês, e escreve em consonância, com limpeza clássica, sobre uma tragédia que já não é mais a da palavra consciente de si.

Isso explica que Bernanos, iniciado à direita, seja um monarquista. Fato que não o impede - diga-se em louvor de sua paradoxal excentricidade - de uma inclinação para o desterro digna de um poeta maldito. Deve-se a essa veia inesperada da parte de um tão bom cristão francês seu exílio voluntário, de sete anos, no Brasil, em Minas Gerais, por quase todo o período da segunda guerra, a que quis assim se opor. Extraterritorial e errante, ele mesmo se definia como um mineiro francês, e parte de sua obra foi escrita aqui, em condições bem mais precárias e vinte anos depois de Claudel nos visitar como embaixador da mesma França profunda.

Isso explica igualmente, embora não a possa exaurir, a personagem central de Sob o Sol de Satã. Temos aí, como no Journal d"un Curé de Campagne (1930)- que o igualmente católico cineasta francês Robert Bresson levou para o cinema, abrindo caminho para Maurice Pialat - um pequeno sacerdote de aldeia, o padre Donissan, cuja humildade se estremece quando ele se depara com o diabo em si, por debaixo da pessoa de um de seus paroquianos. Reside nessa epifania ao contrário o grande diferencial de Bernanos. Se em Mauriac, que sai direto do jansenista Racine, a danação da alma é uma possibilidade, e se, em Claudel, Deus escreve certo por linhas tortas, aqui, o romance católico chega à intranquilidade extrema do Diabo que se encarna.

LEDA TENÓRIO DA MOTTA, PROFESSORA DA PUC-SP, É AUTORA, ENTRE OUTROS, DE PROUST - A VIOLÊNCIA SUTIL DO RISO (PERSPECTIVA)

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