Deus e a ciência

Ex-secretária de educação básica defendia um currículo escolar organizado ‘sobre’ a ‘ótica de Deus’

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

23 de março de 2019 | 02h00

A separação Igreja e Estado é uma das chaves para se entender a República. Afinal, ninguém tem o direito de se proclamar escolhido por Ele para governar: reis, aristocratas, déspotas, papas. Assim, deu-se a renovação política através do voto. 

Ao separarmos um do outro, fica garantida a liberdade de culto a outras religiões, que não a determinada pelo governante. Separá-los dá ao indivíduo o direito de escolher seu líder e sua crença. 

Aqui, antes da Proclamação da República, o catolicismo romano era a religião oficial do Estado. A Constituição de 1824, a primeira do Brasil independente, garantiu relativa liberdade religiosa. O culto estava permitido. Mas aquele que não fosse católico romano não poderia ocupar cargo público.

Em 1891 rompeu-se o laço. O símbolo da ação republicana foi a instituição do casamento civil, que passou a ter mais valor do que o religioso. Uma das motivações foi tirar a aristocracia do poder, que se achava um grupo escolhido de semideuses. 

O fim do casamento religioso foi uma bandeira da Revolta de Canudos, patrocinada por um líder que passou a vida construindo igrejas pelo sertão, Antônio Conselheiro. Foi acusado sem provas de tramar pela volta da monarquia. 

Uma grande cruzada republicana mobilizou a população, cidades e o Exército que retornava vitorioso da Guerra do Paraguai. Foi um massacre narrado com uma precisão “divina” por Euclides da Cunha.

Entre os atalhos da monarquia, governos absolutistas e reinos, ameaçados por um capitalismo nascente, rebeliões sociais e uma nova burguesia no comando, Kant afirmava que a ideia do homem é uma ideia de um fim de si mesmo, vulnerável à máquina do Estado dominante, e a vontade moral se contrapõe ao papel social. Para Hegel, a história é a degradação das coisas. Então veio Marx, para dizer que o homem precisava interferir na sociedade para torná-la justa. 

Kant, otimista, acreditava na solidariedade, que o altruísmo é uma inclinação instintiva, e que o homem se sente bem em fazer o bem.

Para Hegel, havia trevas na divisão das classes. A religião não satisfaz o espírito que se manifesta contra injustiças. Para Marx, os indivíduos são desprovidos da própria vida. 

O marxismo encontra oposição em toda parte, atualmente. Mas em uma coisa ele estava certo: a história muda, e quem a faz é o homem. Interferir nela é alternar seu destino.

O ministro do MEC, Ricardo Vélez Rodríguez, indicado pelo astrólogo Rasputin do governo Bolsonaro, Olavo de Carvalho, que se autodenomina filósofo, em 80 dias no cargo, demitiu o secretário executivo da pasta, Luiz Antônio Tozi, nomeou o substituto Rubens Barreto da Silva, demitido logo depois de tomar posse, e nomeou Iolene Lima secretária de educação básica do ministério, que também já foi demitida.

A educadora evangélica, conhecida por ter fundado uma escola em São José dos Campos, Inspire, ligada à Igreja Batista, apareceu num vídeo espantoso em que afirmava que faria uma educação básica seguindo os princípios de Deus: a geografia, história, matemática “vai” (sic) ser vista “sobre” (sic) a ótica de Deus, numa “cosmovisão cristã”. 

“O autor da história é Deus”, disse a criadora do método educacional Educação por Princípios, que se popularizou numa palestra via YouTube em 2014. Segundo ela, “Deus fez a geografia, as planícies, os relevos, o clima”. A matemática? “O maior matemático foi Deus.”

Ela disse que todo currículo escolar seria organizado “sobre” (sic) a “ótica das Escrituras”, e citava o Gêneses, em que Deus fez o verbo, o céu, a Terra, a luz, o dia e a noite, os mares e continentes, a natureza, a água, os animais e o homem. 

Se ela pega ao pé da letra o que lê, e aparentemente ela só lê um livro, não está de toda maluca. 

Os primeiros pensadores pensavam como ela. Duvidavam que a Terra, o Sol e a Lua não fossem fenômenos místicos. Notavam repetição e uma lógica em fenômenos naturais: o ano dividido em estações e meses. Observavam o movimento estrelar e percebiam ali um padrão. Previram até eclipses.

Há mais de 2.600 anos, os gregos Tales de Mileto e Pitágoras queriam explicar as coisas. Não bastava entender as diferenças e a multiplicidade delas. É possível transformar uma coisa em outra pela ação de quem? Do homem.

Tales dizia que as coisas não são obra de um Deus, mas estão cheias de deuses. Era preciso renegar o pensamento religioso para construir um novo pensamento. 

O Teorema de Tales, que proporcionou a medição da altura das pirâmides do Egito (quando duas retas transversais cortam um feixe de retas paralelas, as medidas dos segmentos delimitados nas transversais são proporcionais), foi sua cria. E o teorema que afirma que a soma dos quadrados de seus catetos corresponde ao quadrado de sua hipotenusa é de Pitágoras. 

A filosofia floresceu e se tornou mania nacional. Para Parmênides, o ser é, o não ser não é. Como uma música dos Titãs, é e o que não é pode existir e não. Então, veio a preocupação com o animal político que, por conta do controle das estações, pôde plantar, construir cidades, viver em Estados. 

Fundaram repúblicas, o serviço público, as classes que separam as funções e, olha lá, a escola. Platão, Sócrates e Aristóteles afastaram-se de Deus para sempre. Inspiraram os materialistas, como Kant: não é a consciência dos homens que determina como ser, mas é seu ser social que determina sua consciência. 

Será que tudo isso não poderia ser ensinado e debatido sem preconceito nas escolas, já que não existe um saber absoluto? Ou teremos de ter apenas um ponto de vista sobre como as coisas foram transcendentalmente feitas?

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