Deus da carnificina desdenha a civilidade

Comédia francesa descasca sem dó nem piedade as mais caras ilusões sobre a cordialidade ocidental

, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2011 | 00h00

Quem acha que a boa comédia precisa de tutano moral não se desapontará com Deus da Carnificina. A peça da dramaturga francesa Yasmina Reza reverencia a tradição da comédia de costumes descascando sem dó nem piedade nossas mais caras ilusões sobre a cordialidade da "civilização ocidental". Na peça, as noções de civismo e o parâmetro geográfico são esgrimidos por uma personagem cuja profissão a habilita a distinguir civilização e barbárie. Trata-se de uma senhora estudiosa das sociedades africanas contemporâneas e talvez esse seja o único detalhe irônico da peça endereçado com maior justiça aos intelectuais franceses. Entre os bem pensantes, mais ou menos liberais, é obrigação moral incluir as colônicas de outrora no círculo luminoso da civilização ocidental. Difícil mesmo é partilhar o território com os antigos colonos e o atual presidente francês, escolhido democraticamente por uma maioria que aprova seu passado político, é uma evidência saltitante dessa dificuldade. De qualquer forma, com um pequeno esforço de adaptação o público não europeu pode fazer as mudanças devidas e imaginar que a personagem da peça se dedica, por exemplo, ao estudo da ética que rege os conflitos pela posse e uso da terra em nosso próprio país. O que é a civilidade? Quem é o civilizado e, sobretudo, qual a validade da noção comum de civilização?

O teatro que agita esse questionamento com grande competência está abalando certezas que funcionam como bússolas para a educação e para a política, mas está também satisfazendo a boa consciência dos espectadores para quem a arte, além de entreter, deve estimular neurônios. Faz bem à autoestima das pessoas educadas aperfeiçoar-se durante as horas vagas. Tampouco os que gostam de rir à toa serão oprimidos pela gravidade implícita no tema desta comédia. Na arquitetura da peça, os dois casais que se encontram a pretexto de pacificar a briga entre os filhos têm um desempenho muito semelhante ao das personagens das comédias pastelão. Atrapalham-se com frases irrefletidas, revelam acidentalmente aquilo que pretendiam esconder, exibem cacoetes de comportamento que os aproximam de tipos das comédias populares e chegam, por fim, ao apogeu da chanchada circense, que consiste no desmoronamento físico de todas as aparências, tanto do cenário quanto das personalidades ficcionais. Embora seja tema criticado na peça, a grossura é também um instrumento a que a autora recorre para que possamos entrever prazeres selvagens. Bem no fundo, talvez na memória infantil, reside a graça do trambolhão e da torta na cara.

Na excepcional direção de Emilio de Mello equilibram-se muito bem as duas vertentes formais da peça. Embora a conclusão seja cínica, há uma moral de fundo na peça e a nitidez dos argumentos esgrimidos para ampará-la exige personagens e atores igualmente refinados. É preciso que a mãe do menino agressor, representada por Julia Lemmertz no espetáculo, se apresente como paradigma da polidez e da submissão às convenções sociais antes que se manifeste o recalque da personagem. O mesmo vale para a amabilidade do anfitrião representado por Orã Figueiredo e a liderança pacifista firme e esclarecida da mãe de vítima, papel de Deborah Evelyn. São atuações próximas do verismo psicológico, cuidadosas porque não exageram a hipocrisia de personagens que se esforçam por acreditar nos "valores da civilização ocidental". Paulo Betti compõe a figura de Alan, capitalista selvagem confesso e progenitor impenitente do menino agressor. Sem cerimônia e também sem a pretensão de enganar, é uma personagem que se aproxima da farsa e, por essa razão, a direção do espetáculo imprime um estilo diferente ao homem que assume a barbárie em um ambiente que procura superá-la. Como figura pública, Nicolas Sarkozy é o presente do céu aos caricaturistas e aos atores e Paulo Betti tira excelente proveito da dádiva.

No desmonte progressivo da película civilizada, o espetáculo não atenua a intensidade das agressões, mas trata-as como ações simbólicas, fúria organizada para desmontar o cenário das convenções sociais e uma espécie de sarabanda coreografada com precisão técnica. Trata-se, na perspectiva da autora, da comédia de costumes sendo invadida por um gênero de comicidade física que desdenha a inteligência. Em uma encenação onde se demonstra o erro da tese pacifista, a ferocidade não parece a vitória exultante do cinismo.

DEUS DA CARNIFICINA

Teatro Vivo. Avenida Dr. Chucri Zaidan, 860, Brooklin, telefone 7420-1520. 6ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 19h. R$ 50. Até 3/7.

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