Deu samba na casa do rapper

Deu samba na casa do rapper

Para entender as letras de Emicida, é preciso pedir que ele mostre seus LPs

Guilherme Werneck, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2010 | 00h00

"Zé Keti, Cartola, Paulinho da Viola na agulha, para eu ficar bem", a letra de Emicida em Só Isso é uma das pistas que o já consagrado rapper deixa sobre sua paixão por música brasileira e discos de vinil ao longo de sua compilação chamada Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, Eu Até Que Cheguei Longe... Outras citações a sambistas das antigas aparecem nas faixas Rotina, Vô Busca Minha Fulô e Ela Diz.

Enquanto expoentes do hip hop, que vão de Racionais MCs e Thaíde a Madlib e MF Doom, são citados em músicas que falam sobretudo de dilemas da periferia, referências ao samba e clássicos da MPB são evocadas nos momentos mais intimistas da obra de Emicida, quando ele volta seu arsenal de rimas para a família e o amor.

Criado nas batalhas de MCs freestyle, as famosas "rinhas", em que dois rappers se enfrentam numa competição para humilhar o oponente com rimas frenéticas, Emicida (sigla para Enquanto Minha Mente Compor Insanidades Domino a Arte) apareceu para um público maior no ano passado ao lançar a mixtape Pra Quem Já Mordeu..., incluída em boa parte das listas de melhores discos do ano passado de sites e revistas especializadas.

Artesanal. Um feito considerável quando se coloca em perspectiva que Emicida não tem nem uma gravadora independente por trás. As mixtapes são CD-Rs embalados em papel craft, feitos à mão pelo próprio rapper e vendidos em shows a preços que vão de R$ 2 a R$ 3. "Já vendi 11 mil mixtapes desde o lançamento em maio do ano passado, agora vou entrar em estúdio para gravar meu primeiro disco."

O disco será todo feito por Emicida. "Até conversei com gravadoras, mas prefiro cuidar das minhas coisas. O mais difícil, que é aparecer, eu já fiz. Então, não vale a pena ter gravadora."

Como se fosse um de seus raps, quando despe a pele do matador de MCs, Leandro Roque Oliveira, da 24 anos, gosta de ficar em casa, com sua mulher e a filha recém-nascida, e suas coleções de histórias em quadrinhos e discos de vinil.

A paixão por discos vem do berço. "Meu pai era DJ de baile, de funk. Os discos ficavam em caixas tipo engradado de cerveja. E se eu mexesse, tomava uns sopapos."

"Mas não fiquei com esses discos. Sempre que vinham amigos em casa, meu pai emprestava um monte de LPs que nunca voltavam." O pai de Emicida morreu cedo e parte dos discos ficou numa chácara da família. "Tem um monte de coisas boas lá, já tentei pegar, mas não deixam. Um dia eu consigo", ri.

Sem os discos do pai, o remédio foi montar a própria coleção, principalmente em sebos, garimpando nas bancas de R$ 1. "Comecei comprando discos de hip hop, aqueles discos de base, para rimar em cima. Usava os discos para fazer música", conta.

Fachada. "Comprei uma MPC 60 japonesa antigona (instrumento eletrônico usado para disparar samplers e batidas), um mixer com um canal funcionando e um toca-discos. Via os discos gringos em que os caras apareciam na contracapa só com um MPC e um toca-discos e ficava frustrado quando meu som não ficava igual. Depois descobri que essas fotos eram só fachada e tudo era feito no estúdio."

Dos discos para a produção musical, Emicida partiu para a coleção de velhos LPs de música brasileira. A pedido da reportagem, selecionou e comentou alguns de seus preferidos.

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