Deu pane na canção popular

Músico, apresentador e artista performático Peri Pane estreia disco

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2012 | 02h11

Alter ego do artista plástico e jornalista Marcos Dávila, Peri Pane é o caso de um codinome que engoliu o dono. Já integrou o grupo Odegrau, já compôs para o Cérebro Eletrônico, já apresentou programa sobre ambientalismo na TV Cultura e já andou por São Paulo, Rio, Barcelona e Nápoles com uma roupa de plástico transparente cheia de bolsos e compartimentos. Nessa roupa, guardava todos os restos de seu consumo cotidiano: caixa de filme de polaroid, guardanapos de pizza, pacotinho de açúcar, bituca de cigarro, flyer do Partido Comunista, cupom de sorvete, garrafas de água, bilhetes de ônibus, pá de plástico, garrafa de cerveja. Era a performance Homem Refluxo.

Agora, ele estreia seu primeiro show solo como músico, com participação de Alzira E (mais conhecida no passado como Alzira Espíndola). O espetáculo apresenta o disco recém-lançado Canções Velhas para Embrulhar Peixes, produção independente.

O show será às 20h30 no Sesc Pinheiros. Inspiradas no trabalho do coletivo Dulcinéia Catadora, a capas do discos são exclusivas e numeradas, feitas uma a uma pelo artista plástico Rafael Gentile (com a técnica do estêncil sobre papelão reutilizado, explica o release).

Canções Velhas para Embrulhar Peixes é um disco que, como na performance Homem Refluxo, se cobre de um passado recente e muito pouco lembrado da MPB, no caso a Vanguarda Paulistana. Há ecos de Itamar Assumpção em canções como a jazzy Pulo e o blues Prana; da Banda Performática em canções como Note; das brincadeiras lupicinianas de Arrigo Barnabé, como em Sambinha.

Samba e tango emolduram A Morte dos Ácaros, e Peri Pane se diverte brincando em canções como Dom Quixote (naturalmente, um xote), além de citar referências líricas aqui e ali, como na canção-título, cujo verso "futuros escafandristas" remete à letra de Futuros Amantes, de Chico Buarque.

Não é, contudo, um disco "cabeça", cheio de construções polissemânticas e jogos semióticos. O compositor demonstra tanto gosto pelos jogos de palavras quanto pelo pop. "Ando pelo lado ímpar/procurando par." Ou pelas brincadeiras de metalinguagem, como na minimalista Note (que é tanto "preste atenção" quanto nota musical, em inglês): "O que a gente nutre/Um dia desses repercute/Reverbera/Tome nota/Escute/Toda espera/Tem seu ajuste".

Segundo a produção do espetáculo, o show Canções Velhas para Embrulhar Peixes começou a ser gestado em 2008, no projeto Cedo & Sentado, no Studio SP. Desde então, já foi testado em lugares como o Teatro Municipal de São Sebastião, Sesc Vila Mariana, Casa de Francisca, Centro Cultural Rio Verde e Galpão do Folias. Nesse ínterim, o músico participou dos projetos dos amigos e outras aventuras paralelas. "Peri me instiga, ao lado dele componho feito louco", disse, em 2010, Tatá Aeroplano.

Peri Pane se apresenta ao lado dos músicos Marcelo Dworecki (violão e cavaquinho) e Otávio Ortega (acordeão e piano) - e com intervenções de seu parceiro letrista, o poeta arrudA (ele declama na faixa Sambinha). Alzira canta em Saudade.

Alzira E. e arrudA são parceiros musicais de longa data. Em 2007, lançaram o disco Alzira E., solo dela. No ano passado, lançaram mais um, Pedindo a Palavra. Ela sempre trabalhou com poetas, e teve obras com Cora Coralina e Alice Ruiz. Como poeta, arrudA lançou no ano passado o livro As Menores Distâncias Podem Levar Uma Vida (Editora Edith).

Com produção musical de Marcelo Dworecki, o CD foi gravado durante o outono de 2012 no estúdio Traquitana, por Cris Scabello e Décio7, mixado por Victor Rice e masterizado por Fernando Sanches, no estúdio El Rocha.

Com o grupo Odegrau, Peri Pane lançou o disco O Fantasma da Light, selecionado para a exposição Roteiro Musical da Cidade de São Paulo, no Sesc Santana. Suas canções Tobogã pro Inferno e 220 V foram gravadas pelo grupo Cérebro Eletrônico e pela dupla Miranda Kassin e André Frateschi. Durante o ano de 2009, apresentou o programa Ecoprático, na TV Cultura, ao lado de Anelis Assumpção. Em 2003, criou a performance Homem Refluxo (www.homemrefluxo.com), com apresentações em São Paulo, Rio de Janeiro, Barcelona e Nápoles.

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