'Deu aquele frio na barriga antes do primeiro ensaio'

Entrevista com Roberto Minczuk. Maestro, diretor da Orquestra Sinfônica Brasileira

, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2010 | 00h00

É preciso saber pronunciar a música de Mahler", diz o maestro Roberto Minczuk, que rege a Sinfonia n.º 1 do compositor à frente da Osesp, com quem volta a tocar depois de cinco anos. "É muito bom estar de volta."

Como tem sido a volta ao pódio da Sinfônica do Estado?

Estou feliz, a semana tem sido muito boa, tranquila, a orquestra muito bem, respondendo musicalmente. A experiência de fazer música tem sido verdadeiramente prazerosa. E, do ponto de vista pessoal, é muito bom voltar ao lugar onde investi tanto da minha vida, da minha energia, meu talento. A Osesp é uma passagem muito importante da minha vida. É bom rever os amigos entre os músicos. E estou ansioso para reencontrar também o famoso público da Osesp.

Sua volta tem sido muito comentada, até pelo contexto de sua saída e por tudo o que a orquestra passou nos últimos anos. A pressão incomoda?

Acho que a expectativa é bastante compreensível e natural. E confesso que, antes do primeiro ensaio, deu aquele frio na barriga. É sempre assim quando se reencontra uma orquestra com quem não se trabalha há um tempo. E temos um repertório particularmente difícil, com Mahler e a estreia de uma nova obra, o concerto escrito pelo Ronaldo Miranda, que é bastante difícil. No fim das contas, temos dois dias para preparar um programa, como acontece com qualquer grande orquestra do mundo. Esse é o desafio que importa.

Seu último concerto com a Osesp foi em maio de 2005. A orquestra está diferente?

Há muitos músicos novos, mas a Osesp segue uma orquestra fantástica. E eles, pelo menos a maior parte, me conhecem bem. Estamos lembrando um dos outros. E tenho podido trabalhar meu conceito de sonoridade, de equilíbrio de força, de som. Estou satisfeito com uma sonoridade mais macia.

A Sinfonia nº 1, Titã, de Gustav Mahler, é um dos pilares de seu repertório. Como vê essa obra? No ano em que se lembra o compositor, como define sua importância na tradição sinfônica?

Eu entendo Mahler como um compositor de canções. Tudo que ele escreve esbarra na ideia de um cancioneiro. Não apenas porque ele escreveu peças para voz e piano e outras com grande acompanhamento orquestral. Mesmo uma sinfonia como a Titã, sem voz ou textos, dialoga com canções, com uma história. Ele fala aqui de natureza, da alvorada, do despertar. Lembra dos camponeses, das danças. É, na verdade, como uma sinfonia pastoral. Apenas no último movimento a música ganha caráter mais explosivo. Ainda assim, não perde o caráter cantabile, onde estão sua sutileza, seu refinamento, suas nuances. Mesmo sem texto, é preciso, em Mahler, saber pronunciar a música. / J.L.S.

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