Tyrone Siu/Reuters
Tyrone Siu/Reuters

Detetive vulnerável e humano

Em Nove Dragões, Michael Connelly, que está na Bienal, vai até a China

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2011 | 00h00

Entrevista

Michael Connelly

ESCRITOR DE ROMANCE POLICIAL

O escritor Michael Connelly foi repórter policial por mais de dez anos até aventurar-se na literatura noir. Tamanha experiência ajudou-o a conquistar uma situação confortável, pois hoje vive (e bem) de seus livros. Ele é um dos destaques da Bienal do Livro, que ocorre no Rio de Janeiro. Connelly veio ao Brasil lançar Nove Dragões (Suma de Letras), obra que marca o retorno do detetive Harry Bosch, personagem mais constante de sua obra.

Agora, ele investiga um caso pessoal, pois sua filha foi sequestrada em Hong Kong, onde vive com a mãe. Assim, Bosch é obrigado a sair de seu ambiente natural, Los Angeles, e se aventurar em Kowloon (que significa "nove dragões", em chinês), a região mais populosa de Hong Kong. Sobre sua literatura, Connelly respondeu, por e-mail, às seguintes questões do Estado.

Você acredita em uma conexão entre literatura e psicanálise no suspense, uma vez que ambos buscam descobrir uma verdade?

Creio que esse é certamente um dos fatores motivadores para tanto escritores como leitores se interessarem pelo gênero. A ideia de um personagem buscando por uma verdade encoberta, disposto a descobrir a si mesmo, é muito forte. Normalmente, preciso de um ano para escrever um livro, período em que, gota a gota, vou saciando os anseios da imaginação até atingir uma longa distância.

De quais autores policiais que você mais gosta?

Minhas maiores influências no início de minha carreira foram escritores que tentaram capturar Los Angeles por meio das palavras. Raymond Chandler, Ross MacDonald e Joseph Wambaugh formaram o grande trio.

Hoje em dia, é importante o poder das redes sociais, ferramentas e dispositivos eletrônicos, como telefones celulares. Como isso pode afetar a narrativa policial do futuro?

Concordo que é importante, mas, no final, é só fachada. Com isso, quero dizer que é apenas uma ferramenta para apresentar os personagens. As histórias policiais não se tornam famosas ou obscuras por conta da tecnologia, mas sim graças aos personagens. Nenhuma tecnologia, por mais avançada, consegue substituir personagens densos.

Alguns escritores acreditam que o romance, como é visto hoje, mesmo nas suas formas menos convencionais, deve muito ao romance criminal, que sempre manteve a necessidade de categorias muito claras: personagens, investigação, demanda conclusão. Você concorda?

Em grande parte, sim. O romance policial tem uma estrutura bem fundamentada que o torna muito atraente. Afinal, além de fornecer essa fórmula, permite que o escritor tenha liberdade para explorar outros assuntos, como caráter e questões sociais. Escrever um romance é como fazer malabarismo com bolas e tramas policiais se diferenciam porque uma dessas bolas é justamente a resolução de um crime. A investigação torna-se a espinha dorsal do romance e cabe ao escritor fortalecer a carne dessa história.

Você mencionou uma vez que Harry Bosch se tornou o porta-voz para suas próprias preocupações sociais. Quais são os seus temas principais?

Provavelmente, não sou muito diferente dos outros. Presto atenção em assuntos como justiça básica, igualitária. Harry utiliza um código básico: ele seleciona quem conta e quem não conta para suas investigações. Quase todas suas visões de mundo podem ser tiradas a partir daí. Nesse caso, sou parecido.

Acredito que toda cidade grande tem sua face obscura. Qual é a sua relação com Los Angeles?

Um lugar como Los Angeles, que está em constante mudança, nunca é totalmente apreendida pela imaginação de um escritor - você está sempre tentando absorvê-la. E, como escrevo sobre essa cidade, me sinto privilegiado pois disponho sempre de novos mundos para explorar em meus livros.

Em que você está trabalhando agora?

Faço duas coisas. Finalizo a edição de um romance com Harry Bosch chamado The Drop. Também estou esboçando o roteiro de um possível programa de televisão baseado em um de meus livros, O Poder e a Lei. Tenho grandes esperanças para ambos os projetos.

QUEM É

MICHAEL CONNELLY

AUTOR E JORNALISTA NORTE-AMERICANO

Nascido na Filadélfia, em 1956, seus livros já foram traduzidos para mais de 36 línguas. Graças à mãe, ávida leitora do gênero, desde cedo conviveu com romances policiais. Admirado por Stephen King, antes de se tornar escritor, Connely foi repórter policial do Los Angeles Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.