Deste terraço, à luz da Acrópole ao anoitecer

Chegamos ao olho do furacão, em "plena crise" grega. Que hora de ir para a Grécia, nos diziam as pessoas. O povo está nas ruas revoltado, vocês são loucos! Chegamos num domingo à tarde e encontramos realmente o povo nas ruas. Aqui, no bairro de Plaka, à sombra da Acrópole, o povo estava por toda a parte, sentado nos bares, passeando, comendo e bebendo, conversando e aproveitando uma bela tarde de sol, sob um céu profundamente azul. E ainda estamos na baixa estação, daqui a pouco vai ferver. Claro, há uma crise, há apreensão, vai haver uma nova eleição, a Alemanha pressiona a Europa para tirar a Grécia da zona do euro, o que trará problemas econômicos e desemprego. Logo a Alemanha, dizem os gregos, que enriqueceu com a adoção do euro?

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2012 | 03h24

Plaka, bairro central, é silencioso como uma aldeia, com melros que cantam nos telhados e nas árvores. Terminamos o dia com o mesmo ritual no terraço da casa de Renato Assumpção Faria, ministro conselheiro da embaixada do Brasil, amigo de longo tempo. E, claro, araraquarense de boa cepa, ele e Márcia cresceram juntos, vizinhos parede-meia. Sentamo-nos de frente para a Acrópole que se ergue à nossa frente, quase como se estivesse dentro de casa, copos de vinho branco na mão, ou uma tacinha de tsipouros, a grapa grega, cercados por vasilhas de diferentes tipos de azeitonas. Ah, as azeitonas gregas! A sólida, imensa rocha onde se situa o Partenon, vai mudando de cor à medida que a noite desce e as luzes começam a acender, acentuando relevos e mistérios e emocionando quase às lágrimas. Porque sabemos estar diante do mais célebre monumento da civilização ocidental, com seus 2.500 anos de história, filosofia, pensamento, democracia. Aqui se criou tudo. Aqui o homem se pensou.

Subimos à Acrópole por longas rampas. Caminhada de horas. A visão que se tem do alto é de 360 graus. Como se pudéssemos ver a Grécia inteira. Parte dos tesouros arqueológicos do Partenon foi levada para o estrangeiro, principalmente para a Inglaterra, por lord Elgin. Bem que Melina Mercouri, quando foi ministra da Cultura, tentou reaver. Quem disse? A história do mundo, da antiguidade até hoje, é feita de destruições, saques, pilhagens. Estou queimado pelo sol grego. Todas as aulas de história nos vêm à cabeça, sem contar que Renato Faria sabe tudo, conhece tudo. Um daqueles poucos diplomatas que se enfronham na história do país em que está servindo. Também, mitologia grega é a fascinação, a criatividade. Atenas, que também conhecemos como Minerva, nasceu da cabeça de Zeus. Pronta, com escudo, lança e tudo o mais. Deusa da sabedoria, da guerra, da ciência. De olhos verde-azulados. Virgem.

Antonio Maggialetti, formado em letras francesas em Pavia, que a cada dia entra na cozinha e prepara uma lasanha de alcachofras, ou um rigatoni com molho de linguiça italiana, segundo uma receita de Bari, conectou-se à internet e programou nossa viagem a duas ilhas, Mikonos e Santorini. Tínhamos de escolher, começamos pelas Cyclades. A viagem de avião entre Atenas e Mikonos dura 25 minutos. A viagem de barco entre Mikonos e Santorini dura 3 horas pelo Flying Cat, veloz. Depois conto nossa aventura pelo Mar Egeu, nesse barco, com uma tempestade na cabeça. Imagino o que Ulisses passou naquelas frágeis embarcações. Mikonos precisa ser visitada antes que as turbas de turistas dos cruzeiros (que descem, passeiam, olham e não gastam um euro) cheguem. Então - e esta foi uma época perfeita -, pode-se caminhar tranquilamente pelo labirinto de ruas brancas, com portas e janelas coloridas. Nosso hotel, o Madalena, ficava numa elevação, acima do porto velho, com uma vista a perder de vista, como dizem no interior. Contemplando o Egeu verde-azulado, como os olhos de Atenas.

Um barco sai pela manhã para a ilha de Delos, essencial. Pois ali nasceu Apolo, o mais belo homem do mundo antigo, deus das artes, da música e da fortuna. Nasceu de Leto e Zeus e seu parto foi dramático, porque Hera, mulher de Zeus, enraivecida pela "traição", proibiu que todos abrigassem Leto. Finalmente, em Delos, uma ilha que vagava pelo mar, e era invisível, Leto deu à luz Apolo. No mesmo momento, cadeias de diamantes prenderam a ilha ao fundo do mar e ela se tornou visível. O que era i-dilos (não visível) tornou-se Dilos (visível). Os deuses gregos tinham tudo de humanos, paixões, amores, ciúmes, traições, raiva, vingança, bondade. Se querem um conselho (pode parecer tolo, mas enfim), venham para a Grécia depois de ler mitologia. Na volta, prometo reler a Odisseia e a Ilíada. Estarei fazendo ao contrário, mas levarei comigo, para sempre, esta visão da Acrópole que fecha cada dia nosso.

Terra de iogurte com mel. Nunca provei igual, nem provarei, a não ser aqui, quando voltar. Terra de peixes, lulas, polvos, anchovas, carneiros, leitões, coelhos (come-se muito, deliciosos), queijo feta, queijos variados, tomates suculentos, alho, alecrim, azeitonas (foi Atenas, a deusa, que criou a azeitona, base da civilização mediterrânea), favas, pimentões, pepinos que brilham de tão verdes e saborosos, laranjas sanguíneas que nos dão um suco rubro e doce. Tudo regado com o elixir da Grécia, o azeite de oliva. E ainda vou falar de Santorini (de perder o fôlego), de Sunia, do pôr de sol, da lua crescente. Vou contar como nasceu o croissant que todos imaginam ser francês, mas não é.

Nesta hora, agradeço a Monteiro Lobato por Os Doze Trabalhos de Hércules, livro que li e reli na infância. No fundo, preparou meu espírito para desfrutar o que estou percorrendo. Incrível, mas verdade, o que se gravou lá atrás fica. E daqui, deste modesto canto de jornal, faço um apelo: pare com isso, Europa; pare com isso. Alemanha. Deixem a Grécia em paz com seus deuses, suas ilhas, seus mares verdes e azuis, sua oliveiras, seus vinhos, seu iogurte inigualável. Tudo começou aqui, deixem continuar. A vida é alegria! Viva Dionísio e Baco (e aqui cito nosso Zé Celso Martinez), viva Afrodite (Vênus), viva Hermes (Mercúrio), patrono de todos nós, viajantes, e viva Hestia (Vesta), a virgem, protetora dos corações e da luz.

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