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'Desses sambas que estão aí tocando nas rádios, faço dez por dia. É mole!'

Aos 76 anos, ele diz que está preparado para se aposentar, mas não consegue. E anuncia: em março, lançará CD, DVD e livro dedicados a seus sambas-enredo

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2014 | 02h09

Por Daniel Japiassu

Quem é do samba não enjoa. Que o diga Martinho da Vila. Aos 76 anos, 47 de carreira, ele está "superanimado" com um tour de samba que parte do Rio, amanhã, e passa por outras seis capitais até aportar em São Paulo.

Um dos maiores nomes do mais brasileiro dos ritmos, o fluminense de Duas Barras, região serrana do Rio, vai dividir o palco do Nivea Viva o Samba com Alcione, Diogo Nogueira e Roberta Sá - com direito a clássicos do naipe de Noel Rosa, Ary Barroso e Gonzaguinha.

Martinho conversou com a coluna na última quarta-feira, dia de seu aniversário - logo depois de receber telefonema de Aécio Neves.

A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Como se manter animado aos 76 anos, 47 de carreira?

Cantando samba. Ele melhora a vida da gente, rapaz.

Você nasceu em um sábado de carnaval. Foi destino?

Pois é... sabe que eu nasci de parteira, né? Minha mãe dizia que eu nasci na lua boa, lua crescente. E falava: "Esse aí vai ser feliz, vai ter um bom futuro". Isso lá na roça. E não é que acabou rolando? No ano passado, quando completei 75 anos, lembrei muito disso, porque tive um aniversário perfeito. Naquele dia, a Vila Isabel estava desfilando no Sambódromo com um samba meu. E foi campeã do carnaval, olha que maravilha!

É verdade que você comprou a fazenda em que seus pais trabalhavam?

Foi, sim. Eles eram lavradores lá em Duas Barras, onde eu nasci. Um dia, quando eu já era famoso, fizeram uma festa em minha homenagem. Quando cheguei, fiquei sabendo que o lugar estava à venda. Aí, comprei! (risos) Hoje eu tenho uma casa lá, que é meu off-Rio. E doei a área onde ficava a fazenda para o Instituto Cultural Martinho da Vila.

E como está o ICMV?

A casa é centenária e estava com alguns problemas. Paramos tudo, fizemos uma reforma grande e, depois do carnaval, vamos reinaugurar. Lá a gente dá aulas de música para crianças, jovens e a terceira idade e alfabetiza adultos. O objetivo é a inclusão social da comunidade da região serrana.

Como vê o ano eleitoral, você que é filiado ao PCdoB?

Vai ser um ano agitado. E a Copa tem influência... se o Brasil perder, o governo vai ficar meio complicado. Se ganhar, a Dilma se reelege. Acho que nunca um governo torceu tanto por uma seleção. (risos)

Gosta da chapa Marina-Campos? E o Aécio Neves?

Rapaz, ele ligou pra mim agora mesmo, o Aécio. É meu chapa. Para desejar feliz aniversário. Disse que vai ao show no Rio. Porque ele é um mineiro metido a carioca, né? Ele é bom candidato. Eu vou ficar meio confuso nessa eleição, porque também gosto da Dilma, mas acho que está na hora de mudar um pouco. Depois eu resolvo... na última hora eu vejo o que faço! Já a Marina eu acho que seria imbatível se fosse a candidata, se o partido tivesse vingado. Ou se ela fosse a cabeça da chapa do Eduardo Campos. Enfim, tem tempo ainda.

Tem acompanhado as manifestações aí no Rio? O que acha?

É um negócio difícil. O que tem de bom é ver a juventude, que ficou tão inerte durante muitos anos, voltando à cena. Mas está muito confuso também, com os arruaceiros.

Como você tem visto o avanço do funk nas comunidades? Está tomando espaço do samba?

Sempre rolaram esses sons diferentes nas comunidades, né? E o funk que é feito hoje é bem brasileiro. Houve um período em que achei meio ameaçador, porque era um funk muito americanizado e eles alugavam as quadras das escolas de samba. Mas hoje está maneiro, os dois ritmos convivem em harmonia. Até porque o samba já sofreu a discriminação que o funk vem sofrendo.

Gosta do samba que é feito hoje em dia ou é saudosista?

Não sou, não. Tem muito samba bom, mas do tipo de samba que mais toca nas rádios eu não gosto muito.

Por quê?

Porque ele é muito parecido com tudo que é feito na música brasileira mais popular hoje. É tudo para pular, para jogar a mão para o alto. Não há preocupação com a letra, com a poesia, com a riqueza melódica. Dessas músicas que estão por aí eu faço umas dez todo dia. (risos) É mole! "Vâmo todo mundo, mão pra cima, pulando, ô-ô-ô, ô-ô-ô".

Dá um dinheiro danado...

Eu sei, mas não sou disso...

Até por falarmos sobre essa mudança no cenário musical brasileiro, em algum momento você pensou em se aposentar?

Estou sempre pensando nisso, sabe? Em dar uma parada, para refletir sobre a vida. Sei que nada é permanente. Posso dizer que vivo preparado para parar. No meu penúltimo CD, que não vendeu muito bem, eu pensei: "Pô, acho que está na hora de dar um tempo!" Aí eu gravei outro, que seria a minha despedida... e estourou! Até hoje eu estou nessa. Não consegui parar ainda, graças a Deus.

Quem é do samba não enjoa.

Não enjoa, de jeito nenhum.

E qual será o próximo projeto?

Para este ano eu havia pensado em fazer um CD com os meus sambas-enredo. Eu tenho uns 20 ou mais. Alguns não passaram da quadra, outros são bem antigos, da época da Aprendizes da Boca do Mato, escola de que participei antes da Vila Isabel. E tem 11 que foram para a avenida. Acabei juntando tudo em um CD. Também fiz um DVD e escrevi um livro sobre enredos. O CD vou lançar dia 25, antes do carnaval. Como o DVD não ficou pronto a tempo, deixei para depois do festejo nas ruas, junto com o livro. A arte da caixinha será do Elifas Andreato, que já fez diversas capas dos meus álbuns. Vai ficar bonito, rapaz. Até porque os arranjos não são de samba, como a gente está acostumado a ouvir, não. Chamei Leonardo Bruno, Rildo Hora, Ivan Paulo. Coisa fina!

Você escreveu um artigo emocionante para o Estado sobre a morte do Mandela. Como foi conhecê-lo, quando ele esteve aqui no Brasil, em 1991?

Ah, uma emoção muito grande! Porque, quando ele estava preso, no mundo inteiro os artistas se reuniam e faziam grandes shows para homenageá-lo. E, aqui no Brasil, não acontecia nada. Aí eu fui procurado pelos movimentos negros de São Paulo, para fazer um comício na Praça da Sé. Foi bastante forte, bem legal. Quando ele saiu da cadeia, fez questão de visitar os países que o apoiaram e resolvemos fazer uma festa aqui no Rio. Ele veio, me agradeceu pela música que eu havia feito para a Winnie, mulher dele na época. Era sobre a passagem do tempo, chamava-se Meu Homem.

Como é o Martinho da Vila em casa, com a família?

Rapaz, uma bagunça. (risos) Eu tenho oito filhos, com quatro mulheres diferentes. E convivo mais com os dois menores, o Preto e a Alegria. O bom é que seis deles são ligados à música. E a maior estrela é a Mart'nália. Que, aliás, veio falar comigo sobre um projeto. Queria fazer um disco de samba puro. Eu disse: "Acho bom, está mesmo na hora". Ela, então, me pediu para organizar. Ou seja, vai ter show e disco, chamado Mart'nália em Samba, no fim do ano.

E o que você costuma fazer quando não está gravando ou fazendo shows?

Olha, o que eu gosto mesmo de fazer quando não tenho nada pra fazer é... nada! (risos) Porque, às vezes, chega o sábado, você passou a semana toda trabalhando, e alguém pergunta: "Ô, Paulinho, amanhã, vamos à praia?" Pronto, já virou um compromisso... Já virou problema! Por isso eu não marco nada. Gosto de ir para a roça, ouvir os passarinhos.

Tem usado a Lei Rouanet?

Rapaz, eu não dou muita sorte com a Lei Rouanet, não.

Por quê?

Não sei... esse projeto do CD mais DVD mais livro, por exemplo, eu mandei para o Ministério da Cultura, foi aprovado e eu não consegui captar patrocínio.

Mas se Martinho da Vila não consegue captar dinheiro, quem consegue?

Pois é, não consegui. Aí eu mesmo produzi, sabe? Aliás, eu ia fazer uma coisa mais simples, mas a Biscoito Fino, onde um dos meus filhos trabalha, quis aumentar, fazer um negócio bonito, especial. Quer dizer, me arranjaram trabalho! (risos)

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