Desplat é o favorito num ano sinfônico

Até músicos pop como Trent Reznor, do Nine Inch Nails, se renderam às orquestras de Hollywood

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

Grande favorito entre os cinco indicados na categoria melhor trilha sonora, o francês Alexandre Desplat, de 49 anos, deve finalmente levar o Oscar para casa por O Discurso do Rei, após ter sido indicado em três ocasiões anteriores - pelos filmes A Rainha, O Curioso Caso de Benjamin Button e O Fantástico Senhor Raposo. O nome de Desplat na linha de frente junto ao alemão Hans Zimmer (por A Origem) revela a proeminência da música sinfônica, hoje, em Hollywood. Renderam-se a ela até os outros três indicados, oriundos do universo pop - o inglês John Powell (Como Treinar Seu Dragão), o indiano A. R. Rahman (127 Horas) e o americano Trent Reznor (A Rede Social), cantor da banda de rock industrial Nine Inch Nails.

Não é exatamente um fenômeno novo. Há algum tempo os compositores de origem pop em Hollywood - entre eles Danny Elfman (da banda Oingo Boingo), que escreve as trilhas de Tim Burton - descobriram no cinema um filão para novas experiências musicais que envolvem grandes grupos orquestrais. Até mesmo Desplat, aluno do compositor erudito grego Iánnis Xenakis (1920-2001), flertou com a música popular, compondo canções para Charlotte Gainsbourg, antes de reger a Sinfônica de Londres. Sua trilha para O Discurso do Rei revela mesmo a influência do pensamento estético de Xenakis, marcado pelo respeito à estrutura formal e ao diálogo com outras disciplinas (o grego foi arquiteto). No tema principal, Desplat mostra como traduziu musicalmente a gagueira do rei George 6º. usando uma linha melódica simples e repetitiva ao piano e gravando parcialmente a trilha com microfones da época.

O indiano Rahman tem poucas chances de ganhar com a trilha de 127 Horas, um belo trabalho, mas nada tão excitante como o de Quem Quer Ser um Milionário?, que lhe rendeu dois Oscars em 2009 (melhor trilha e melhor canção). O inglês John Powell é o azarão da noite. Aos 48 anos, em Hollywood desde 1997, é indicado pela primeira vez ao Oscar. Aprendeu tudo com seu mestre Hans Zimmer, com o qual compôs a trilha de Kung Fu Panda. A da animação Como Treinar Seu Dragão é sua melhor obra, evocando a época em que Powell estudou música clássica no Trinity College - destacando-se o piano do romântico tema inicial e as cordas na sequência principal do desenho, quando o garoto cavalga o pequeno dragão com asa quebrada.

Já Hans Zimmer, usa uma formação orquestral mais pesada em A Origem, cujo obsessivo tema principal conserva um incômodo acento wagneriano. Surpresa mesmo é a trilha de Trent Reznor e Atticus Ross para A Rede Social: original, energética, ela define a dividida personalidade do inventor de Facebook, oscilando entre o pop eletrônico e o piano acústico. Reznor é tudo, menos ilustrativo.

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