DESPERTA, FERA

Show de Nova York que pode vir ao Brasil mostra o potencial explosivo do The Who

BENTO ARAÚJO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2013 | 02h11

Em meio à crise do petróleo de 1973, os mais de 80 densos minutos da ópera-rock Quadrophenia não foram palatáveis o suficiente para alçar o disco ao primeiro posto das paradas de sucesso. Ironicamente, um álbum duplo bem mais acessível estava no topo da parada americana: Goodbye Yellow Brick Road, de Elton John. Na parada britânica, mais ironia. O primeiro posto era ocupado por Pin Ups, de David Bowie, contendo versões de dois clássicos da era mod do The Who: I Can't Explain e Anyway, Anyhow, Anywhere. Enquanto David Bowie, Elton John, T. Rex e Slade revisitavam o rock básico e festeiro dos anos 1950 e 1960, celebrando cores e posturas extravagantes, o Who surgia com um disco duplo monocromático e intelectual. Em comum, somente a nostalgia, o exercício banal de exaltar algo que já havia ficado pra trás.

Há duas semanas, em New York, o Who continuou apostando na nostalgia ao executar na íntegra seu trabalho de 1973. A diferença é que hoje eles estão amparados pela tecnologia, como Pete Townshend, o regente da coisa toda, descreveu durante o show: "É realmente incrível o fato de hoje ser possível executar este álbum na íntegra, coisa que não foi possível na época". Em 1973, Townshend até tentou executar Quadrophenia ao vivo com o Who, porém a tecnologia de 40 anos atrás impediu os planos do guitarrista, que num show em Newcastle, chegou até a destruir boa parte do palco e dos tapes pré-gravados com efeitos sonoros que deveriam funcionar em perfeita sincronia com o grupo. Tudo isso na frente dos fãs.

Em Nova York, os dois integrantes mortos do Who, Keith Moon e John Entwistle, marcaram presença. O baixista aparece no telão, solando em 5:15, enquanto Zak Starkey, mais conhecido como "o filho de Ringo Starr" o acompanha na bateria. Moon 'aparece' cantando Bell Boy. O fato dos temas centrais de Quadrophenia serem baseados nos quatro integrantes originais até ameniza os duvidosos "duetos com o além", aparentemente uma tendência do show business atual, onde músicos mortos "tocam" com os que continuam vivos.

Tudo em Quadrophenia é tão grandioso, detalhado, dramático e elegíaco que é difícil acreditar que uma orquestra não participou das gravações. As camadas sinfônicas foram todas geradas pelos sintetizadores de Townshend e pelos sopros de Entwistle, nada de orquestra. Na atual excursão, além de Townshend e Roger Daltrey, outros oito músicos acompanhantes fazem Quadrophenia acontecer ao vivo. Dentre eles estão o baixista Pino Palladino, o baterista Zak Starkey e o guitarrista/vocalista Simon Townshend, irmão de Pete.

O palco do The Who é hoje um pequeno primor. São quatro telões de alta definição que vão contando a complexa trama existencial de Quadrophenia junto da banda. A experiência é completa: música altíssima, textos e imagens de impacto. Imagens tanto de Jimmy, o herói fracassado do conto de Townshend, como da própria história do mundo: guerras, o Who devastando muitos palcos ao longo de sua carreira, ascensão e morte de ícones da cultura pop como Elvis e Marilyn. John F. Kennedy e Martin Luther King misturados a Lady Di e a queda das torres gêmeas.

O show Quadrophenia And More agrada a qualquer tipo de fã. Pode parecer até infame, mas nos EUA o grupo ganhou uma espécie de sobrevida após suas canções aparecerem no popular seriado CSI e a banda ter tocado no intervalo do Super Bowl de 2010. O final do show segue o formato greatest hits, com Pinball Wizard e Behind Blue Eyes. A surpresa é a última canção, a acústica Tea & Theatre, do subestimado Endless Wire, até agora o último disco de estúdio do grupo, lançado em 2006. O show termina apenas com Pete Townshend e Roger Daltrey no palco. Pete, no violão, dá uma risada típica de canto de boca para Roger, que retribui com uma interpretação emocionante. São dois sobreviventes do rock mais selvagem dos anos 1960 que deixam o palco abraçados e ovacionados.

Há indícios ainda não confirmados da vinda do Who este ano ao Brasil. Seis produtoras brasileiras estão na disputa para trazer o show para São Paulo e Rio de Janeiro. Setembro seria o mês reservado para apresentações pelo Brasil, Argentina e Chile.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.