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Despentear é preciso

O best-seller esperado da semana, nos Estados Unidos, é a peça que continua a saga de Harry Potter. Mas o best-seller em segundo lugar na lista da Amazon custa só US$ 1 e é um livreto do tamanho de um folhetim de turismo destinado às hordas que invadem o Rio de Janeiro

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

01 Agosto 2016 | 02h00

O best-seller esperado da semana, nos Estados Unidos, é a peça que continua a saga de Harry Potter. Mas o best-seller em segundo lugar na lista da Amazon custa só US$ 1 e é um livreto do tamanho de um folhetim de turismo destinado às hordas que invadem o Rio de Janeiro. É a cópia da Constituição dos Estados Unidos, como a que o paquistanês-americano Khizr Khan tirou do bolso do paletó e brandiu no momento talvez mais importante da convenção democrata na Filadélfia.

Considerando que o escrete de oradores eletrizantes incluiu Barack, Michelle, Bill e Bernie, a façanha de Khan, falando sem texto preparado e sem teleprompter, não foi desprezível. O imigrante e hoje advogado de imigração é pai do soldado muçulmano Humayan Khan, morto aos 27 anos, em 2004, protegendo seus companheiros de um carro-bomba quando servia o exército americano no Iraque.

Notem que, no ano dominado pelo fanfarrão boquirroto Trump, uma figura discreta e humilde se tornou o termômetro da capitulação moral e política do Partido Republicano. Durante 7 minutos, Khan falou pausadamente, sob o olhar angustiado de sua mulher Ghazala. “Você não sacrificou nada,” disse ele a Trump. Perguntou se Trump tinha lido a Constituição e ofereceu sua cópia para Trump conferir as palavras “liberdade” e “proteção igual para todos”.

Fora dos Estados Unidos, para quem se horrorizou com o intervencionismo desastroso da era Bush, pode ser difícil avaliar o impacto do momento em que um muçulmano, nascido num dos países que mais protege extremistas muçulmanos, se orgulhou do sacrifício do filho como o preço pela escolha que fez ao emigrar. Apesar de todas as comparações que têm sido feitas com o país dividido de 1968, o ano mais sangrento do Vietnã, o ano dos assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy, o circunspecto Khzir Khan virou uma tradição política ao avesso: de repente, o Partido Democrata se tornou a voz do patriotismo em contraste ao niilismo isolacionista do Partido Republicano. 

A intensidade e a eficácia do argumento de Khzir Khan podem ser medidas pelo derretimento de Donald Trump. Numa entrevista à rede ABC para um dos tradicionais programas políticos de domingo, Trump partiu, como de hábito, para o insulto. Deu respostas desconexas e sugeriu que Ghazala Khan tinha sido silenciada pelo autoritarismo do marido muçulmano. A reação veio num artigo de opinião editorial assinado por Ghazala no Washington Post. “Minha religião ensina que somos todos iguais,” escreveu, explicando que não consegue olhar fotos do filho, cuja imagem foi projetada na convenção, e expressou sua dor em silêncio.

A pancadaria continuou. Khzir Khan foi a um outro programa no domingo e se dirigiu aos líderes republicanos “patriotas” do Senado e da Câmara perguntando, como vocês querem entrar para a história? Terão coragem, uma vez, de colocar o interesse eleitoral de lado? “O mundo está vendo a escuridão de seu caráter e de sua alma,” disse, referindo-se a Trump. Khan não fala frases de marqueteiro e, nesta era de cinismo político, tem o poder de desconcertar, não só o público, mas também a imprensa descontente com a habitualmente inacessível e orquestrada Hillary Clinton.

Conhecidos que não moram nos EUA me perguntam perplexos, há um ano, se há limite para a escatologia de Donald Trump. A resposta simples é não, já que, toda semana, ele nos dá oportunidade de reavaliar o que constitui o fundo do poço. De todos os ataques eloquentes que sofreu na convenção democrata, nenhum deixou Trump mais abalado do que o discurso do não democrata Mike Bloomberg. O bilionário filantropo, que governou a cidade de Nova York por três mandatos, ridicularizou a sagacidade empresarial de Trump e disparou: “Sou nova-iorquino, conheço a vigarice quando me deparo com ela”.

Talvez a pergunta mais importante seja, há limite para a corrupção do establishment que fez seus cálculos e decidiu sobre a vantagem em apoiar o candidato republicano? Os bilionários que o detestam, mas esperam comprar, com a presidência de Trump, a indicação de um juiz para a vaga aberta na Suprema Corte calcularam o custo de sua derrota e também de sua vitória? 

A fronteira da vergonha, pessoal ou coletiva, tem sido testada num tempo em que o viralismo é confundido com compasso moral e ter milhões de seguidores na rede social passa por liderança. Mas Khzir Khan pode, sem querer, ter reforçado uma tática para diminuir o risco de ter o vigarista mais perigoso da história eleitoral americana instalado na Casa Branca: a vergonha. Obama, no discurso da convenção, um dos melhores de sua presidência, lembrou o óbvio: “Nosso poder não vem de um autodeclarado salvador qualquer. Nós não queremos ser dominados”. 

Trump dá sinais de pânico e de querer faltar aos debates presidenciais. Ele não tem vergonha de ser “a alma negra” descrita por Khzir Khan. Mas não suporta que despenteiem a cabeleira de sua ignorância. 

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