Despedida na Colômbia lembra luta de García Márquez pela paz

Prêmio Nobel de 1982, autor de 'Cem Anos de Solidão' morreu na quinta-feira, aos 87 anos, na Cidade do México

AE/EFE

22 de abril de 2014 | 23h32

Com aplausos de pé e ao som do Réquiem, de Mozart, e de música folclórica, a Colômbia se despediu, na terça-feira, de Gabriel García Márquez, em cerimônia na Catedral de Bogotá, em meio a uma forte chuva. O escritor morreu na quinta, aos 87 anos, na Cidade do México, em consequência de insuficiência renal e respiratória. Há anos, ele lutava contra um câncer linfático.

Em uma igreja lotada de convidados especiais, o presidente colombiano Juan Manuel Santos abriu a homenagem ao Prêmio Nobel de 1982. Do lado de fora, na Praça de Bolívar, telões exibiam a solenidade para centenas de admiradores do autor, que acabaram sendo dispersados pelo temporal. Nem a viúva do autor de Cem Anos de Solidão, Mercedes Barcha, nem seus filhos Gonzalo e Rodrigo participaram do ato.

Na segunda-feira, um tributo ao Gabo na Cidade do México reuniu toda a família, que foi recebida com muitos aplausos ao chegar ao Palácio de Belas Artes, local da homenagem. Vestida de preto, a viúva carregava a urna de madeira com as cinzas do marido, cujo corpo havia sido cremado em cerimônia particular.

Tanto a Colômbia quanto o México aguardam o pronunciamento da família sobre o destino final de suas cinzas. Ambos países se declaram merecedores de abrigar os restos mortais do autor de O Amor nos Tempos do Cólera. Em relação à disputa, o presidente Santos ressaltou: "Os colombianos gostariam de ficar com as cinzas. Gabo era mais colombiano do que muitos colombianos, mas devemos respeitar a decisão da família".

García Márquez nasceu em Aracataca (Colômbia), em 1927, mas em 1961 mudou para a Cidade do México. Amargurado, ele deixou seu país após ter sido acusado de apoiar a extinta guerrilha M-19. Ainda na segunda-feira, moradores de Aracataca, que também reivindicam as cinzas, realizaram um funeral simbólico, reverenciando o autor que converteu o humilde vilarejo na lendária Macondo.

"O México lhe abriu as portas que a Colômbia tinha fechado. Houve muitas críticas por Gabo não ter voltado do exílio, mas ele sempre fez muito por sua pátria. Nunca esqueceu sua terra, sua Macondo", defendeu o trabalhador colombiano José Pérez. Independentemente da polêmica, o escritor mantinha um imóvel em Cartagena, na Colômbia, que visitava com frequência.

"Sua última estada foi no ano passado, quando ficou quatro meses, de março a julho", informou o diretor da Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-americano, Jaime Abello.

Mesmo Gabo não sendo um homem religioso, como garantiu seu biógrafo inglês Gerald Martin, o tributo na capital colombiana teve início com a leitura do Evangelho de São Mateus pelo arcebispo de Bogotá, cardeal Rubén Salazar, que disse na ocasião: "García Márquez nos abriu caminhos de humanidade para ficarmos livres da injustiça e violência e construirmos a paz".

A paz também foi tema da fala do presidente Juan Manuel Santos durante a homenagem dos colombianos ao Nobel. "Ele foi um homem comprometido com o destino de seu país e da América Latina, um homem de profundas convicções, preocupado com a justiça, educação, e muito especialmente em conseguir a paz".

Na catedral enfeitada com rosas amarelas, as preferidas do novelista, tendo entre os presentes membros do alto governo, do corpo diplomático, personalidades da economia e cultura, além dos ex-presidentes Belisario Betancur, César Gaviria e Ernesto Samper, o presidente Santos acrescentou que García Márquez "buscou a paz, trabalhou por ela, sempre quis uma Colômbia em paz. Em sua memória, não vamos fraquejar nessa tarefa, a maior que temos como nação".

"As palavras de Gabo têm estado sempre em nossas casas, bibliotecas, em nossos jornais, em nossas revistas, mas estão, principalmente, em nossos corações", afirmou Santos. "Todo nosso reconhecimento, todo o afeto, todas as homenagens a este homem gigante que escreveu com letras de ouro o nome da Colômbia no panorama mundial", declarou ainda.

"Hoje, lembramos e rendemos tributo ao Gabo escritor, ao Gabo jornalista, ao Gabo formador de novas gerações, ao Gabo militante das causas justas, ao Gabo humanitário, ao Gabo que promoveu o cinema e, mais do que tudo, ao Gabo afetuoso e amigo, o melhor amigo de seus amigos." Com essas palavras, o presidente encerrou a homenagem, convidando os presentes à Catedral de Bogotá para ficarem de pé e aplaudirem o escritor.

Logo após a ovação, houve a apresentação musical do popular vallenato La Casa en el Aire, de Rafael Escalona, um grande amigo de García Márquez.

Na Colômbia, as homenagens prosseguem nesta quarta, Dia do Livro e Idioma Espanhol, com a leitura simultânea e em voz alta de Ninguém Escreve ao Coronel nas bibliotecas e escolas do país, segundo informação da ministra da Cultura, Mariana Garcés.

Nessa linha, durante a Feira Internacional do Livro de Bogotá, que será realizada entre 29 de abril e 12 de maio, serão expostas obras que García Márquez doou de sua biblioteca particular.

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